O que está por trás da onda de manifestações?

o bloco tá na rua

o bloco tá na rua

Por Murilo Silva

O que está por trás da onda de manifestações?

A pergunta, como vem sendo feita, é sintomática da sub-democracia em que vivemos.

É uma grande sorte Fernando Haddad ser o prefeito de São Paulo nesse momento. O fato de PT e PSDB estarem do mesmo lado mostra de forma cristalina o quão pobre tem sido o debate político da Nova República.

Essa falsa dicotomia entre dois partidos, esse bipartidarismo fajuto entre duas siglas que no fundo são uma só.

Não, meu bom petralha, eu não entrei para REDE da Marina Silva. É isso que você não está entendendo. Nem você nem eles.

Não estão entendendo nada, diria Caetano – quando entendia alguma coisa.

Paes, Cabral, Geraldo, Fernando, José, Zé, Eduardo, Dilma, Lula, Plínio ! (para ele a Dilma mandou descer o cacete porque a economia vai mal…)

Nassif, Mino, Noblat, Merval, Eliane, Dora…

Folha, Estado, Globo, “os blogs progressistas”…

Progressistas/conservadores; conservadores/progressistas.  As pessoas estão nas ruas, e eles estão falando do câmbio. Por quê?

Porque eles não conseguem entender que milhares de jovens estejam na rua, falando de política; pensando política; fazendo política, e que nenhum deles esteja pensando em 2014.

Passaram muito tempo discutindo o Brasil de cima, no Planalto.

Eles esqueceram que a sociedade vive. E vive na Planície.

A exceção deve ser feita a Elio Gaspari. Entre os ”velhinhos” da imprensa ele foi o único a ir conferir em loco a manifestação de ontem.

Gaspari se deparou com a segunda batalha da Maria Antônia.

O colunista acerta na mosca ao constatar que os jovens de 68, alguns deles, sexagenários, “não cheiram mais gás (suave em relação ao da época), mas o bouquet de vinhos”.

A geração de 68 chegou ao Planalto.

Eles lutaram por eleições, foram cerceados no passo seguinte. O que os jovens de hoje manifestam na rua é a insatisfação com a mera consulta que se dá de quatro em quatro anos. Isso é pouco.

Daí a tensão dos dias que vivemos. Pela primeira vez na história da Nova República, o debate político da sociedade se deslocou do debate político imposto pela classe política.

O pavio pode ser de 20 centavos. Mas dentro do barril, na composição da TNT, existe um mar de contradições sociais.

O aumento das passagens é um gatilho que dispara uma reação violenta, uma reação do indivíduo contra o estado letárgico em que ele esteve condicionado até aqui.

O jovem vai pra rua porque não aguenta mais ser alijado da participação. Existe um deficit democrático que, naturalmente, gerou uma demanda por mais democracia.

É como se as pessoas se negassem a continuar na arquibancada.

É como se nossa democracia, até ontem infanta, estivesse debutando.

Falta um longo caminho para que cheguemos na maturidade desejada, mas, depois de décadas caracterizadas pela paralisia, começamos a caminhar.

Estamos em 2013, o ano de 1968 – que como lembra Zuenir Ventura – não acabou; não volta mais.

Foi um ano roubado da história, roubado de sua geração.

Estamos em junho de 2013. E 45 anos depois, temos uma nova chance de construir um futuro mais democrático.

Em tempo: Os manifestantes não estão pensando em 2014; mas 2014 virá. O Planalto tem um encontro inadiável com uma Planície em chamas.

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Sobre Murilo Silva

Jornalista por acidente.
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14 respostas para O que está por trás da onda de manifestações?

  1. Pingback: Não é sobre 20 centavos, estúpido |

  2. MHScafutto Scotton disse:

    Estou em Minas e pelas fotos,creio que a PM depredou,pixou e destruiu o patrimônio público.Usaram flores?Vamos baixar o pau nessa PM irresposável que impediram o direito de ir e vir de quem voltava do trabalho.

  3. pipo disse:

    O perfil dos manifestantes indica que são universitários e jovens de classe média.

    Isso faz lembrar aquela música do Ultraje a Rigor:

    “Não vai dar, assim não vai dar
    Como é que eu vou crescer sem ter com quem me revoltar
    Não vai dar, assim não vai dar
    Pra eu amadurecer sem ter com quem me rebelar”

    Depois de tanto estrago, eles já se esqueceram dos “centavos do aumento” e agora se voltam contra a “truculência da Polícia Militar”. Então, a “causa” já mudou.

    Nas mentes desses jovens o que importa é rebelarem-se. Qualquer causa vale, qualquer uma…

    Os partidos políticos, oportunistas que são, embarcam nessa “onda” tentando tirar proveito, como sempre.

    A mídia agradece e aproveita para incrementar sua audiência e suas vendas.

    E nós, que somos honestos, trabalhamos e merecemos mais respeito e atenção, sempre levamos no ku., porque ninguém luta por nós e ou por causas que mereçam, realmente, uma manifestação dessas.

    Espetáculo deprimente, ridículo e desproporcional à “causa” que o motiva.

    • sueli disse:

      Os manifestantes deveriam pedir mais segurança, mais prisões, como nosso (querido) Lula prometeu quando iniciou seu primeiro mandato e não cumpriu, estes jovens deveriam se revoltar com pessoas que mataram a dentistas queimada, ou o menino boliviano que morreu porque seus pais não tinham dinheiro bastante para eles .Estes jovens estão sendo pau mandado de politicos (ou estão sendo pagos para isto).
      Jovens – Levantem uma bandeira com motivo, vão para as ruas com faixas dizendo realmente o que querem, porque pedir para sair este ou aquele politico sair não vai resolver nada, parece pedido de papai noel

  4. Pingback: ”Eu errei”, diz Jabor |

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  6. Assero disse:

    To contigo pipo, falastes tudo.

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  11. Pingback: Marina Silva apoia candidatura sem partido |

  12. ricardo disse:

    Isso é consequencia da revolução da comunicação (informática) de uma política que só beneficia as pontas. A política do governo Lula Dilma é retirar dinheiro do tesouro nacional para dar a classe C para que esta gaste pagando juros à classe A, afinal, o crédito foi liberado irresponsavelmente. Ocorre que esqueceram que quem é tributado de verdade nesse país é a classe média, que não tem recebido nada do governo, mas que é quem tem consciencia para ir para a rua.
    Política assistencialista. Chega de compra de voto.

  13. Pingback: Lula no Times: Eles querem mais. Querem participar |

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