“É preciso ousar na reforma do sistema político”, diz Wagner Romão

O Brasil vive hoje um momento de grande crise na democracia representativa: a presidenta eleita Dilma Rousseff sofreu impeachment, o ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha está preso e o presidente do Senado Renan Calheiros se tornou réu no Supremos Tribunal Federal.

Como resposta a esse cenário de incertezas, vem novamente ao debate a necessidade de reforçar os mecanismo da democracia direta no Brasil, que daria aos cidadãos maior participação em debates essenciais como o da PEC 55, já aprovada em primeiro turno no Senado e que congela os gastos públicos do governo federal em saúde e educação por 20 anos.

Para debater esse assunto, foi realizado na última segunda-feira (5) o evento Além do Parlamento – Riscos e oportunidades da democracia direta organizado pela Fundação Friedrich Ebert, em conjunto com o CLACSO, a FLACSO, o Mobilis – Agência de Mobilização Social no auditório da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP)

O professor da UNICAMP Wagner Romão apontou alguns caminhos para a esquerda fazer o debate sobre a reforma política no Brasil. Para ele, pontos como o financiamento de campanhas, transparência do judiciário, mais poder aos municípios e o controle dos monopólios da mídia devem ser centrais no debate.

“É preciso ousar na reforma do sistema político para conquistar setores sociais que estão caminhando pra direita. O pior que pode acontecer nesse momento é ficarmos reclusos em casa com uma agenda envergonhada. Um bom exemplo, é a proposta que a PEC 55 passe por um referendo. Como que se chama uma reforma constitucional dessa envergadura sem passar por um referendo junto ao eleitorado?”

A professora de Universidade Nacional de San Martin Alícia Lissidini explicou as recentes experiências de democracia direta em países sul-americanos como o Uruguai. Para ela, quando bem utilizados, esses mecanismos permitem a maior participação dos cidadãos no processo da formação das leis pode aproximá-lo dos locais tradicionais de decisão política.

“Uma das grandes experiências aconteceram no Uruguai recentemente com as legalizações do aborto e da maconha, além da recusa da diminuição da idade penal. No caso do aborto, todos os setores da sociedade tiveram a oportunidade de dar sua opinião. Inclusive o próprio presidente Tabaré Vasques era contra a medida, mas mesmo assim ela acabou sendo aprovada”, explicou Lissidini.

“Não é porque vem da iniciativa popular que é sacrossanto e fantástico”

Alguns exemplos, porém, dão conta da complexidade desse debate. Lissidini apontou casos de que a consulta popular vem de cima para baixa como um dos mais problemáticos. Os mais recentes foram os plebiscitos para reeleições indefinidas na Venezuela e na Bolívia, onde ambos os governos saíram derrotados, e o acordo de paz do governo colombiano com as FARC.

“O povo colombiano não votou contra a paz, mas, sim, se posicionou contra o presidente Santos, pois encararam que o acordo não havia sido bem debatido com a população. Temos que diminuir cada vez mais essas consultas que partem de cima pra baixo e reforçar que esses mecanismos partam do povo”, disse

Romão acredita que o Brasil ainda precisa avançar muito na questão da democracia direta, e lembrou de consultas recentes a população brasileira e de seus problemas.

“Aqui, um projeto de lei de iniciativa popular tem que tramitar no congresso nacional como qualquer outra. Isso pode ser ruim por um lado, mas tivemos recentemente o exemplo das 10 medidas contra a corrupção do Ministério Público, que era assinada por mais de 2 milhões de brasileiros e que era realmente muito ruim. Nem tudo que vem da iniciativa popular é sacrossanto e fantástico. Quem dera fosse assim “, criticou.

“O plebiscito do desarmamento era um processo de democracia direta, mas cuja condução desse processo se deu no nível da democracia representativa. A Taurus e a Cia Brasileira de Cartuchos financiaram a campanha do `não` com R$ 5 milhões. Esses interesses vão povoar a não ser que haja uma regulação dos mecanismos pelos quais se delimitam esses espaços”, lembrou.  

Alterações nos partidos políticos

A sensação de falta de representatividade atinge, cada vez mais, os partidos políticos brasileiros. No auge dos protestos de 2013 militantes com bandeiras dos principais partidos brasileiros eram hostilizados nas ruas.

Para Romão, o debate da reforma política precisa passar por uma aproximação dos partidos das demandas populares. Ele criticou o que chama hoje de “partidos cartelizados” e também se colocou a favor da chamada “cláusula de barreira”, onde, pra existir, um partido tem que ter uma certa porcentagem de votos nas eleições.     

“Temos uma legislação em que o Estado é o maior financiador dos partidos políticos. Se a gente não encarar que um partido tem que ser autofinanciável pelos seus militantes, a gente vai ter dificuldade de mudar esse cenário e a tendência será que esse descolamento dos partidos de suas bases só aumentem. Estamos muito próximos dos chamados partidos cartelizados, com empresas que vendem as assinaturas pra fazer um partido político. Temos uma espécie de mercantilização”, encerrou.

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André Singer: “no futuro será preciso fazer e mobilizar ao mesmo tempo”

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Foto: Divulgação

Ocorreu na última quinta-feira (10) na faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Sociais da Universidade de São Paulo (USP) o lançamento do livro “As contradições do lulismo: em que ponto chegamos?” (Ed. Boitempo).

O evento teve a participação dos organizadores do livro, André Singer e Isabel Loureiro, além de autores dos artigos presentes na obra: Leonardo Mello, Ruy Braga, Wolfgang Leo Maar e Maria Elisa Cevasco.

A obra, que não contempla o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, é um conjunto de artigos que tentam explicar as decisões políticas dos anos Lula e Dilma no poder, marcados pela contradição entre a distribuição de renda por meio de um “reformismo fraco”.

Para Singer, o início da derrocada do governo Dilma foi o momento em que ela tomou partido a favor da burguesia industrial e contra o rentismo e iniciou um “ensaio neodesenvolvimentista” mais arrojado. Esse período teve início em julho de 2011 e durou até abril de 2013, quando a taxa básica de juros caiu de 12,50% para 7,25% ao ano.

“Depois da crise de 2008, não dava mais pra relançar a economia com base no consumo, teria que ser na base do investimento. E a dúvida era: investimento privado ou público? E a Dilma tentou favorecer ao máximo o investimento industrial privado, fazendo uma política econômica mais avançada de tal maneira que se tivesse dado certo a gente estaria caminhando de um reformismo fraco pra um reformismo forte. Mas pra isso ela precisava ter base política e como ela não teve, fracassou”, explicou.

Uma das principais dicotomias dos governos petistas aconteceram no campo. Em seu artigo para o livro, Loureiro aponta uma “combinação esdrúxula entre agronegócio e agroecologia” que ao mesmo tem em que priorizava o primeiro como alavancador da balança comercial, investiu uma soma muito maior de dinheiro em projetos ligados aos pequenos agricultores como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).

O Projeto da esquerda

O fato do livro não abordar o período derradeiro do governo Dilma não foi motivo para que o assunto não fosse perguntado pela plateia. Uma das principais inquietações foi sobre a união entre os vários setores da esquerda brasileira nesse momento de crise e se a PEC 55, que tramita no Senado e prevê o congelamento de investimentos sociais em áreas como saúde e educação por 20 anos, pode ser fator de união entre os progressistas brasileiros.

“O importante agora não é tanto essa unificação, mas que a esquerda tenha um projeto”, apontou Loureiro. Para ela a esquerda precisa resgatar a ideia de Celso Furtado e repensar qual a ideia de desenvolvimento que vá se defender a partir de agora.

O professor da USP Ruy Braga alerta que o caminho pra esquerda é resgatar a ideia de democracia participativa.

“Você ficar negociando com o parlamento e propondo políticas públicas e achar que isso é o suficiente é o caminho pra derrota no Brasil. Essa crença na democracia representativa faz com que você abra mão da perspectiva de efetivamente enfrentar os interesses que não são os populares. Qualquer solução pra esquerda no país passa por uma revalorização da democracia participativa”, criticou.

Autocrítica pra quem?

Não é de hoje que setores da esquerda brasileira cobram o PT de fazer uma autocrítica de seus erros enquanto governo. Agora, talvez esse retorno as origens seja necessário não só pra esquerda brasileira, mas para a mundial, já que o conservadorismo tem dado as caras tanto no Reino Unido e EUA quando na Colômbia.

Braga traça um paralelo da situação do PT com a escolha do Partido Democrata por Hillary Clinton nos EUA, em que o pragmatismo é sempre única saída encontrada.

“O Partido Democrata foi pra briga com uma candidata com enorme rejeição e que era a decantação cabal de tudo aquilo que a população americana não queria mais. Sendo que tinha a solução a mão, que era o Bernie Sanders, mas a opção foi pelo “possível. Se eles estivessem ido com o Sanders muito provavelmente hoje nós estaríamos comemorando a vitória do primeiro candidato socialista da história americana. Com o PT acontece mais ou menos a mesma coisa, é uma esquerda que foi cedendo e quando viu foi puxado o tapete e não houve resistência. Não existe espaço vazio na política, você cede e tem uma hora que ninguém mais acredita que possa ser capaz de dar uma guinada. Eu tenho insistido de que precisamos resgatar essa ideia de que se é possível algo a gente tem que se colocar a esquerda desse possível, ceder sempre a esse pragmatismo vai ser entregar o ouro pro bandido”, sugeriu.

Singer identificou o que ele chamou de duas faces da esquerda nos anos do lulismo no Brasil: os que achavam que pouco tinha sido feito e que era preciso avançar, e os que acreditavam que muito tinha sido feito e era preciso defender as conquistas. Para ele, ambos precisam fazer a devida autocrítica.

“Os que diziam que era pouco tem que reconhecer que foi feito muito e isso é uma questão analítica importante porque ninguém dessa posição achava que sem confronto isso poderia ser feito. Não é uma questão de gostar ou não gostar, é questão de a gente entender a realidade. Da mesma maneira que a experiência da presidenta Dilma não deu certo outras coisas deram muito certo. Já a posição contrária tem que pensar que ao abandonar a mobilização, tudo o que foi feito fica muito frágil. Para o futuro será preciso fazer e mobilizar ao mesmo tempo, mesmo que o preço seja algum grau de confronto. Se você não mobilizar isso não fica, então o saldo final tem que ser as políticas, mas também a mobilização que a sustenta no período seguinte, porque sempre haverá um período seguinte”, encerrou.

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Jessé Souza: criou-se uma base social conservadora que não existia no Mensalão

 

14053745_1322313027780549_5770941829876101462_oPor Bruno Pavan

Na última sexta-feira (26) o sociólogo e ex-presidenta do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) Jessé Souza esteve na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) para lançar seu novo livro A radiografia do Golpe (Ed. Leya).

Souza aponta que a obra, além de ser uma tentativa de superação da frustração de lidar com todo esse processo, é uma reflexão dos fatores que desencadearam essa crise. Uma das grandes questões levantadas é o que teve de novo em 2016, que foi capaz de derrubar o governo, que não havia no auge da crise do Mensalão? O professor aponta que em 2016 houve uma formação de uma base social conservadora que foi às ruas.

“Essa classe média estava incomodada com os pobres que ascenderam aos shoppings e aos aeroportos, mas ela não tinha uma narrativa. Isso é algo que você reclama à boca pequena no bar, mas não é ilegítimo dentro do contexto do cristianismo, a religião passa pra cultura e não é razoável ser contra essa ascensão. As manifestações de 2013 e o Jornal Nacional vão produzir a narrativa e um líder (Sergio Moro) pra essa classe média protofascista. O fascismo tem uma gramática universal que é a manipulação de emoções e medo que são transformados em bandeiras pseudo-racionais e a criação de um bode expiatório comum. Entre nós isso é interno, é o combate a corrupção. Você não é um crápula quando veste a camisa verde e amarela e vai pra avenida paulista protestar contra a corrupção”, esclareceu.

A mídia é sócia da elite econômica

Um personagem muito presente dentro do processo do impeachment foi o ex-presidente da câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ). As portas de seu processo de cassação no Conselho de Ética da casa, por ter mentido na CPI da Petrobras e ter dito que não possuía contas no exterior, Cunha resolveu dar prosseguimento ao processo de impeachment da presidenta após não conseguir apoio dos deputados do PT para barrar o processo.

Souza, no entanto, critica os setores da esquerda que insistem em “fulanizar” o processo e entende que a crise política foi implantada por elementos impessoais, ligados a uma elite do dinheiro que financia o Congresso Nacional e a grande imprensa.

“A elite do dinheiro, como mandante do golpe, nunca foi percebida enquanto tal. Essa elite brasileira é escravocrata e não tem um projeto de longo prazo para o país. Quando você não tem isso, você não tem a percepção que o seu lucro tem a ver com desenvolvimento, a formação de uma sociedade industrial, no fundo é uma elite da rapina fácil. Vamos dominar o orçamento e enfiar no bolso e continuar parasitando a sociedade a partir do juro. O mercado é invisibilizado em sua ação e seus braços mais visíveis são o Congresso comprado e a mídia, que além de comprada é sócia desse saque”, apontou.

O mercado se dá ao luxo de não ser hipócrita

O outro braço visível da elite econômica do país, de acordo com o professor, é a compra do Congresso Nacional como representantes de seus interesses. Para ele, projetos como o da PEC 247/16 que, em nome do ajuste fiscal, congela gastos públicos em saúde, educação e previdência por 20 anos. Na prática, colocando a inflação dos períodos na conta, vamos ter diminuição do investimento público nessas áreas.

“O que está implícito ali na PEC 247 é a compra do Congresso pela elite econômica. Como você não tem essas condições políticas pra taxar esses ricos, você tem que pedir esse dinheiro emprestado a esses ricos que você não pode taxar. Essa é a crise fiscal, que vai dar na dívida pública e esse mecanismo vai aumentar cada vez mais a drenagem de recursos de todas as classes a essa meia dúzia de rentistas. O mercado invisível se dá ao luxo de não ser hipócrita”, encerrou.   

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Apesar de termos feito tudo que fizemos…

Por Bruno Pavan

Elis Regina imortalizou, em 1976, a música “Como nossos pais”. Escrita por Belchior, ela conta a história de uma geração que começava a romper com os valores de seus pais.

“Não quero lhe falar, meu grande amor

Das coisas que aprendi nos discos

Quero lhe contar como eu vivi

E tudo o que aconteceu comigo”

Há tempos esse texto anda aparecendo pelas timelines das redes sociais por aí. Ele decreta que os jovens de hoje não querem mais saber de casa própria e carro e busca a resposta para essa questão.

A hipótese é muito romântica, quase um resgate de Woodstock ou o sonho de pegar uma Harley e atravessar a Rota 66: o jovem de hoje prefere gastar seu dinheiro em viagens e aventuras.

O próprio texto diz que os jovens de até 35 anos podem estar mais reticentes em fazer investimentos porque temem que crises futuras leve tudo por água abaixo. Sem saber que, estando eles preparados ou não, a próxima crise vai vir, porque, ora pois, vivemos no capitalismo.

Mas a questão entra aqui em um outro aspecto em que o capitalismo é mestre: conquistar os corações e mentes. Mesmo diante da aparente descrença desse público com o sistema e valores que temos hoje, quase ninguém cogita algo fora dele.

Os jovens de hoje são ensinados que os valores de seus pais não estão mais corretos. Ao invés de ficarem guardados em casa contando vil metal, se jogam no mundo em busca de experiências. Sem saber que a suposta liberdade é uma das amarras mais eficientes do capitalismo desde sempre.

A Geração Y (argghhh) troca, conscientemente, a certeza de uma casa própria ou um carro por experiências inovadoras como o Uber e o serviço de aluguel de casa Airbnb. Todos eles muito antenados com as necessidades de hoje. Os jovens de hoje são mais libertários, é o que dizem.

Isso pode, sim, ter um fundo de verdade. Mas a escolha dessa juventude não é tão natural assim. Décadas atrás, quando nossos pais trabalhavam na indústria, se colocou no ideário daqueles trabalhadores que eles tinham que ter um carro, uma casa, uma família e tudo isso antes do 30. Não havia nada de revolucionário nisso, existia um mundo com muito petróleo pra vender e, falando especificamente do Brasil, um país que não podia parar, já que uma paralisação econômica poderia fazer cair a máscara do regime ditatorial.

Mas que caretice, você diria. Pois é…

Mas o que ninguém te conta é que o capitalismo queria que seus pais agissem do jeito que agiram, e quer que você aja do jeito que você está agindo.

Vamos a uma conta simples: quanto você precisaria gastar para que, hoje, tivesse o que seus pais tinham conquistado até que você nascesse? Uma casa própria, com quintal, três filhos e um carro na garagem…

Mas você, ao contrário do seus pais, não precisa trabalhar em uma máquina, correndo o risco de perder um dedo. Não, você foi o primeiro da família que fez faculdade, tem línguas, é um profissional super conceituado, não precisa ir trabalhar de macacão, na sexta, olha, até de bermuda você pode ir. Tem um XBox na minha empresa e mesa de pebolim, cara. As vezes eu trabalho 12 horas por dia, ah, mas assim dá até gosto! Preciso resolver umas paradas no whatts app em casa, ah, mas é rapidinho! Trabalho como PJ, mas é até melhor, né, pago menos imposto pros ladrões do governo.

A geração de hoje pode até ser a do aluguel, do Uber, do Airbnb, mas deve saber que isso não é nenhum tipo de revolução hipster. Isso é uma adequação aos moldes de um capitalismo mais escasso. As tecnologias deixam a vida urbana mais agradável, mas também te desconectam das dificuldades e das limitações que o capitalismo te impõe. Da janela do Uber os problemas do transporte público ficam mais distantes, por exemplo.

Nada de errado ter outras prioridades que seus pais na vida, só não se esqueça que você não faz nenhuma revolução com essa sua vida supostamente desapegada.

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Falta de narrativa e de punição são limitações para o debate sobre a ditadura, dizem autores

CapasLivrosDois livros com temática da ditadura militar foram lançados na última quinta-feira (14) em São Paulo por dois ex-militantes contrários ao regime. A mestre em literatura francesa Ivone Benedetti e o ex-professor da Escola de Comunicação e Artes da USP Bernardo Kucinski se voltaram à literatura ficcional para contar suas experiências no período dos governos militares.

Benedetti lançou “Cabo de Guerra” (Ed. Boitempo), que conta o período repressivo pelos olhos de um “cachorro”, não o animal, mas como era conhecido popularmente o militante que entregava seus companheiros para a repressão.

“Temos que saber que as constatações, as dúvidas, todas elas vivem dentro de nós e o que nos distingue de um cachorro é a opção pela luta. Muitos daqueles que morreram na ditadura tiveram suas dúvidas, mas no momento certo eles foram íntegros. O que distingue o mártir do calhorda não são as dúvidas, mas a escolha”, explicou.

Já Kucinski, escritor de diversas obras sobre jornalismo, política e economia, lança sua segunda obra ficcional “Os visitantes” (Cia das Letras) que tem como pano de fundo uma série de acertos de contas com alguns personagens de seu livro anterior “K – Relatos de uma busca” (Ed. Expressão Popular).

“K era um livro que tratou de episódios e protagonistas ainda na memória das pessoas, alguns ainda vivos, então ele suscitou muitas reações. A primeira delas foi um historiador de holocausto amigo meu que apontou um erro quando o protagonista disse que até os nazistas escreviam os nomes de todas as pessoas que eles matavam e isso estava errado. Depois foi havendo outras consequências e eu tive a ideia de uma narrativa mais homogênea através da figura do escritor que é assombrado pelos personagens do seu livro anterior”, apontou.

Disputa de narrativas

A metade do século XX, dentro do contexto da guerra fria, fez com que a América do Sul fosse inundada por ditaduras civis-militares patrocinadas pelos Estados Unidos e seu medo de surgirem “várias Cubas” pelo continente. Acontece que as semelhanças do Brasil com seus vizinhos acabam por aí.

A lei da anistia brasileira, assinada em 1979, fazia com que os presos políticos voltassem ao Brasil, mas também perdoava os torturadores. Diferente da Argentina, por exemplo, que condenou mais de 200 pessoas, entre militares e civis, por tortura na época da ditadura.

Uma tentativa de justiça foi o surgimento da Comissão Nacional da Verdade, que buscava esclarecer crimes de mortes, torturas e desaparecimentos na época dos governos autoritários, porém, sem a possibilidade de punição judicial. Bernardo aponta que uma das grandes falhas da Comissão foi não conseguir impor uma nova narrativa para o período.

“A história chega a nós apropriada através de narrativas e a grande oportunidade criada pela comissão era desenvolver uma luta por essa narrativa, para que a Nação olhe e reflita sobre o que aconteceu, discutir aquilo com seus filhos e netos pra que não aconteça de novo. Nesse sentido ela fracassou completamente, e pode até ter sido ruim na medida que no futuro vão dizer ‘vocês já tiveram a comissão da verdade, o que mais vocês querem?’”, lamentou.

Para Benedetti, essa carência de punições aos torturadores e agentes da repressão do estado leva a literatura a tentar buscar um ângulo diferente pra contar a ditadura, um pouco mais voltada às subjetividades dos personagens.

“Ela (a literatura) pode resgatar as nossas subjetividades, o que sobrou, de que maneira aquele período, aquele regime influenciou a nossa vida pessoal e social. A falta de uma catarse, como houve na Argentina, propicia esse tipo de comportamento. É a história da impunidade, não houve punição, por isso alguém é capaz de estar no congresso e fazer apologia ao Ustra e muitas pessoas possam admirar essa atitude. De que maneira a nossa mentalidade e subjetividade foi influenciada por todo esse clima da narrativa que faltou? Isso me parece merecer tratamento” , encerrou.

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Lalo Leal: “você não pode discutir o papel de comunicação pública sem discutir o papel do Estado”

EBCNaoGoverno

Por Bruno Pavan

Aconteceu na última segunda-feira (11), no auditório do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, um debate sobre o futuro da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) diante da recente ofensiva do governo interino de Michel Temer.

Um dos primeiros atos praticados pelo governo Temer, logo após o Senado Federal afastar a presidenta eleita Dilma Rousseff, foi intervir na EBC, nomeando um novo presidente, Laerte Rímole, em substituição a Ricardo Mello, que tem mandato até 2020.

A ex-presidenta da EBC, Tereza Cruvinel, aponta que essa medida, juntamente com o cancelamento dos contratos de publicidade de blogs e sites alternativos, faz parte de uma estratégia maior de tentar calar a divergência no país.

“No dia 23 de maio o interventor (Laerte Rímoli) fez uma invasão na base da força na EBC e começou a demitir. Eliseu Padilha deu ordens de que a primeira providência era tirar os comentaristas do ar, isso foi censura. Logo depois o governo demitiu 60 gestores e nomeou um novo conselho de administração”, disse.

Para Franklin Martins, ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social do governo Lula, a atitude de Temer foi um recado para a grande imprensa, que apoiou a implementação de seu governo e todo o processo de impeachment da presidenta Dilma.

“Fiquei muito impressionado com a virulência com que o governo interino do temer atacou a EBC, eu acho que ele foi burro, porque chamou a atenção pra algo que ninguém sequer teria percebido. Mas isso mostrou que a EBC era crucial pra eles, e era crucial por quê? Pode ser que eles tinham que mandar um recado para aqueles que foram seus grandes aliados dentro desse processo golpista que é a Mídia Privada”, sugere.

O Estado que queremos

Saúde, educação, transporte e segurança. Certamente se você perguntar nas ruas quais são os principais direitos da população brasileira, a maioria vai dizer os pontos acima. Mas por qual motivo quase ninguém se lembra da comunicação pública?

O Capítulo V da Constituição de 1988 reza sobre comunicação social. Seus artigos garantem manifestação de pensamento, liberdade de expressão, direito a pluralidade da informação e a proibição de qualquer tipo de censura.

O professor da Universidade de São Paulo (USP) Laurindo Leal Filho, o Lalo, salientou a importância do surgimento da EBC em 2007, mas reforçou que gerações de brasileiros viveram até hoje com a certeza de que somente fosse possível consumir informação de qualidade e isso dificulta que grandes mobilizações ocorram em favor da comunicação pública.

“Não é fácil fazer uma comunicação pública num país de coronéis. Os coronéis midiáticos são herdeiros dos coronéis agrários. Você colocar uma comunicação pública que avança, em termos de democracia, numa sociedade oligárquica foi um arrojo muito grande e isso foi um mérito do presidente Lula”, disse.

“Você não pode discutir o papel de comunicação pública sem discutir o papel do Estado. No Estado mínimo não tem comunicação pública, no estado de bem-estar social, que tem saúde, educação etc, você tem também comunicação pública como um direito e um serviço prestado”, explicou.

Pluralismo e disputa política

A não democratização da informação é uma das maiores críticas que se faz aos governos petistas. O ministro Franklin Matins, por exemplo, quando deixou seu cargo no governo Lula deixou também uma proposta de democratização dos meios eletrônicos. Nas palavras dele, o projeto era moderado e “não tinha nenhuma invenção fora da Constituição”.

Mesmo assim, Martins destaca que a criação da EBC e seus veículos, como a TV e a Agência Brasil, além da ascensão de meios de comunicação independentes, podem ter alertado grande parte da população para a importância de uma maior pluralidade na informação.     

“Algo que ficou evidente no processo golpista é que eles querem que o país tenha apenas uma voz. A sociedade, que antigamente achava que isso era natural porque não acreditava que poderia ser diferente, hoje se sente incomodada com isso, basta ver a queda de circulação dos jornais e da audiência na televisão. Os jornais se fecham dentro de si e ficam fingindo que fazem jornalismo quando todos sabemos que eles fazem manipulação. Mas a sociedade terá de lidar com o fato de que esse pluralismo não vai se dar naturalmente, ele vai ser resultado de uma disputa política”, encerrou.  

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Marcia Tiburi: o fascista é um sujeito esvaziado de si

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“Você coloca no sujeito esvaziado aquilo que você quiser” Foto: Kamila Ferreira/ Agência PT

Por Bruno Pavan

A filosofa Marcia Tiburi esteve na última segunda-feira (4) no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, no centro da capital paulista, para a palestra “A Onda de ódio e preconceito em debate”, realizado pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Iatararé.

Autora do livro “Como conversar com um fascista”, Tiburi contou que a ideia de escrever esse livro partiu de um exemplo vindo de sua própria família, durante o almoço de natal e diz acreditar que isso acontece com muitas outras famílias brasileira

“Uma pessoa de minha família, que tem doutorado e pós doutorado, começou a destilar o discurso de preconceito muito pesado sobretudo em relação a sexualidade do outro. Aí lá pelas tantas eu percebi que as pessoas ao redor iam ficando muito quietas, se produzia um constrangimento, inclusive muitas deixavam a mesa, algumas delas chorando diante daquele preconceito exposto”, explicou.

Ela explica a ironia do título apontando que “obviamente” ninguém vai conseguir conversar com um fascista, mas as pessoas precisam voltar a se comunicar no dia-a-dia, como em uma fila de banco, dentro do taxi ou do ônibus.

Esvaziamento da alma  

Mas o que explica o aumento do discurso conservador em uma momento em que a luta em favor da diversidade está cada vez mais presente na sociedade? Para a autora, o fascínio é resultado de uma série de questões do mundo moderno. Uma delas vem do “esvaziamento de alma” provocado pelo capitalismo nos dias de hoje.   

“O capitalismo chupa e devora e sua alma, ele esvazia a pessoa por completo, e o que vem depois é uma implantação de próteses na sua subjetividade. Quando você um negro racista ou uma mulher machista, por exemplo, é como se você tivesse sido protetizado pelo capitalismo. Foi implantado uma espécie de chip. E o fascista é isso, ele é um sujeito esvaziado de si. Se colocou nele um complemento que pode ser uma hóstia, uma bíblia, uma televisão, a revista Veja, o que for. Você coloca no sujeito esvaziado aquilo que você quiser”

Redes sociais como meios “fascistizantes”

Muitos contrários ao uso de expressões datadas de um certo período criticam a utilização da palavra fascismo para descrever o que vivemos hoje no Brasil e no mundo. Para Tiburi, porém, o fascismo mudou de roupagem dos meados do século passado pra cá.  

Com o auxílio da chamada sociedade do espetáculo, meios de comunicação de massa e redes sociais, de acordo com a filosofa, colaboram para dar as pessoas um capital imagético, onde elas se sentem bem reproduzindo clichês.

“A gente tem que pensar nas condições do desenvolvimento do fascismo na nossa época. Um dos pontos é que vivemos em um mundo globalizado, em que uma das suas características é a sociedade do espetáculo. O Grande capital é a imagem, vide o poder dos meios de comunicação de massa. Nas redes sociais, as próprias palavras usadas na forma de clichês passaram a valer como imagens.  No Facebook, por exemplo, você vai ali e fica todo empoderado, porque você se transforma em um personagem, tem um lugar. O cara que capturou isso é um gênio e não só da computação, ele é um gênio estético, político e das operações de linguagem. Pega o capital imagético e verbal, coloca os dois dentro de um contexto e permite que todos usem isso”, observou.

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