Thatcher e o futebol. Vale a pena elitizar o esporte do povo?

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Míriam Leitão me absolverá!

Agora no Redação SporTV:

André Rizek: A morte da Dama de Ferro foi manchete no mundo todo. Você esta de luto pela morte da Dama de Ferro, Tim Vickery?

– Na verdade estou de luto porque ela nasceu.

Entenda porque o clássico Manchester X Manchester não respeitou minuto de silêncio pela morte da ex-premiê com o ótimo texto de Felipe Lobo no Trivela, sugestão do colaborador Lucas Michelan.

Para quem gosta de futebol, o nome de Margaret Thatcher, falecida nesta segunda-feira, em consequência de um derrame cerebral, não é estranho. A ex-primeira ministra inglesa participou de mudanças drásticas no futebol britânico nos anos 1980. Não, ela não foi responsável por modernizar o futebol do país e o transformar em um dos mais ricos e influentes do planeta. Mas é inegável que as mudanças pelas quais passou o futebol britânico foram catalisadas pelos eventos trágicos dos anos 1980 e as medidas tomadas pelo governo Thatcher, que durou de 1979 a 1990.

No meio dos anos 1980, o futebol era uma ameaça tão grande ao governo quanto os grevistas de sindicatos. E o cenário era favorável para uma mudança com medidas drásticas. Os dirigentes eram incompetentes e gananciosos, o que levou a situação a um caos. Os públicos eram os mais baixos da história do futebol no país e os relatos de violência envolvendo torcedores eram constantes. Isso tornou o futebol um ambiente pouco atraente e violento. A impressão era que os estádios eram ambientes onde se corria risco de morte com os torcedores bêbados e maníacos que atiravam dardos (o jogo de dardos é muito comum nos bares ingleses) – o que era verdade, diga-se, mas não apenas pelos torcedores, mas principalmente pela estrutura que era oferecida.

A situação era tão grave que o governo de Thatcher tratava o futebol como “uma questão de lei e ordem”. Em umartigo de Andy Beckett no jornal The Guardian, há um trecho que ilustra bem como o futebol e seus torcedores eram vistos naquela época: “Nos anos 1980, muitas pessoas poderosas no Reino Unido consideravam os torcedores como nada além de hooligans, que deveriam ser policiados da maneira mais robusta possível”. E foi isso que foi feito. O governo Thatcher tinha os sindicatos como um grande inimigo e esses sindicatos tinham grande influência nas torcidas organizadas de clubes britânicos (e o contrário também), muitos historicamente ligados com esses movimentos. Muitos clubes surgiram justamente desses movimentos. A violência e os problemas no futebol era uma chance única do governo diminuir significativamente o poder e influência desses grupos – quando não acabar definitivamente com eles.

Os desastres que seguiram acabaram abrindo espaço para as mudanças que o governo gostaria de fazer. Em 1985, veio a gota d’água: 39 torcedores italianos morreram no estádio de Heysel, em Bruxelas, na final de Liga dos Campeões entre Liverpool e Juventus. Os torcedores foram considerados culpados. O problema eram os hooligans e a Uefa puniu os clubes ingleses com cinco anos fora das competições europeias – o Liverpool por seis anos. Só que diversos fatores foram ignorados, como o péssimo estado de conservação do estádio e a má distribuição de ingressos, que causou superlotação. E não era um caso isolado.

Poucos meses antes, um incêndio na arquibancada de madeira no estádio do Bradford City matou 56 pessoas. A tragédia deixou ainda mais evidente o que era uma sensação dos torcedores: os estádios no Reino Unido foram deixados degradados de tal forma que se tornaram armadilhas mortais. Mas o alvo do governo Thatcher era um só: os hooligans.

Em 1989, o governo até tentou implantar um sistema de registrar todos os torcedores e obrigar a terem um cartão de identificação – algo que já vimos algumas tentativas sem sucesso no Brasil. É um erro histórico, porque na Inglaterra essa medida também não deu certo, mas só foi descartado depois de uma das maiores tragédias da história do futebol inglês, naquele mesmo ano de 1989. No estádio de Hillsborough, em Sheffield, o jogo entre Liverpool e Nottingham Forest nunca teve um fim. Em uma confusão no estádio, 766 pessoas ficaram feridas e 96 morreram. Novamente, a culpa foi colocada nos “torcedores bêbados do Liverpool”, que já tinham participado da confusão em Heysel. Com essa confusão, a culpa ficou toda sobre eles, apesar do Relatório Taylor, famoso por ter tido grande impacto nas mudanças que vieram em seguida no futebol inglês, apontar para falhas na organização e da polícia naquele dia. Mas um grupo de investigação independente conseguiu acesso aos documentos que mostraram que os erros das autoridades foram a maior causa das mortes em Hillsborough. Os dirigentes do futebol eram complacentes com os problemas, mas não foram responsabilizados por isso na época, mas isso mudaria 23 anos depois.

Em setembro de 2012, o relatório da tragédia de Hillsborough, em 1989, culpou as autoridades pela tragédia. Mais do que isso, o relatório mostrou que a polícia e os serviços de emergência tentaram colocar a culpa nos torcedores. O primeiro ministro David Cameron chegou a pedir desculpas publicamente pela atitude do governo na época. Com tudo isso, em dezembro o Supremo Tribunal de Justiça do Reino Unido anulou os vereditos originais, que condenou torcedores à prisão, e anunciou uma nova investigação.

Margaret Thatcher em Hillsborough: toda culpa aos hooligans

As duras medidas contra os torcedores fizeram com que eles se organizassem e passassem a criar publicações, de forma a criar canais de comunicação entre os diversos grupos de torcedores no Reino Unido. Torcedores do Liverpool, revoltados com os 96 mortos e pela tentativa do governo de criminalizar os torcedores do clube como culpados, criaram a Football Supporters Association (FSA), que pode ser traduzido como “Associação dos Torcedores de Futebol”. O grupo cresceu e tornou-se nacional, criando força para pressionar por mudanças.

As mudanças no futebol inglês vieram nos anos 1990, principalmente pelo rápido aumento das receitas vindas da venda de direitos de TV nos canais por assinatura. Vieram as mudanças estruturais, tão necessárias, e uma elitização do público nos estádios, o que mudou, de fato, o aspecto nos jogos de futebol na Inglaterra. Tornou também o acesso difícil para as classes mais baixas. Passados esses 24 anos da tragédia de Hillsborough, a Premier League tornou-se o campeonato mais visto do mundo, o mais prestigiado e o mais rico. Mas também não dá muito espaço para os torcedores de classe mais baixa, que precisam ver os jogos dos seus times nos bares, porque o preço dos ingressos tornou-se caro demais para boa parte da população.

Durante anos, a importância de Thatcher nas mudanças do futebol inglês foi supervalorizada. Com tudo que se viu em Hillsborough, percebe-se que os erros foram muito grandes, maiores que os acertos. E isso vale para boa parte do seu governo, visto durante anos como responsável por recuperar o Reino Unido de uma crise, mas que não foi tanto assim como se pensava.

As medidas de Thatcher vieram porque era uma chance de atacar uma parte da população que incomodava o seu governo conservador. As mudanças que o seu governo promoveu tiveram consequências boas, como a evidente diminuição de poder dos hooligans. Mas também trouxeram consequências ruins, como o forte preconceito que gerou contra classes mais baixas da sociedade, que acabaram, em última instância, tendo o seu acesso aos jogos de futebol dificultado quando a reforma do futebol inglês foi feita, já nos anos 1990. É inegável que isso tudo teve influência para transformar os estádios ingleses, muitos com um século, em um ambiente seguro e agradável para serem frequentados. Só que os torcedores pagam um preço muito alto até hoje por tudo isso – metafórica e literalmente.

Em tempo: o colaborador e amigo João Andrade: “O melhor jornalista esportivo do Brasil é inglês [Tim Vickery]”

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Sobre Murilo Silva

Jornalista por acidente.
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