Na cultura do estupro, o não significa talvez

Estupro talvez não seja só o que você está pensando

 

Por Bruno Pavan

A maioria das pessoas, quando você fala em cultura do estupro, refutam a sua ideia.

“Bobagem, o Brasil é um país liberal. Não vê no Carnaval as mulheres peladas e ninguém faz nada?”

A palavra estupro assusta. Mas é fácil provar que a nossa cultura é extremamente machistas e vê práticas que podem ser consideradas estupro com naturalidade.

Hoje o diretor de teatro Gerald Thomas colocou a mão por baixo do vestido de Nicole Bahls, do Pânico.

“Está pedindo”, dirão uns. “Homem é fraco,” dirão outros. Uma dica pra quem não consegue se controlar quando vê uma mulher usando roupa curta: se tranque numa jaula!

Thomas ganhou a carta branca dos moralistas de fazer o que quiser porque Nicole “não se dá ao respeito”.

E cai em um debate muito peculiar: o do não significar não.

Este editor tem histórias para contar sobre casos assim.

Ele deve ter perdido algumas oportunidades sexuais pela vida por acreditar cegamente que o “não significa não”.

Muitas mulheres, por culpa da cultura machista (sempre ela), acabam não dizendo sim quando querem dizer sim para não serem tachadas de “fácil”.

Se for o primeiro encontro, então, sexo significa que ela é uma prostituta, na melhor das hipóteses.

Mas este texto aqui da Nádia Lapa fala com muito mais propriedade dobre o assunto do que este blogueiro.

Criou-se a ideia de que o homem deve insistir e insistir, enquanto a mulher tenta guardar algo. O “não” é visto como “talvez”. No entanto, se a mulher transforma o talvez em um “deixa pra lá”, ela na verdade não está consentindo. Não é um “sim” entusiasmado, intenso, certeiro, como deve ser em qualquer relação. É um “sim” por convenção social, por achar que ele já fez demais, que agora merece o contato sexual, que é melhor ceder e se livrar logo. Isso não é consentimento, é coerção.

A imprensa trata do caso como algo menor. A matéria do EGO diz na primeira linha: “Por essa Nicole Bahls não esperava”. Acho que mulher nenhuma espera ter uma mão entrando no seu vestido sem consentir.

Já estava esperando um complemento da matéria: “como esse Gerald Thomas é safadinho, gente…”

O que foi feito com Nicole pode ser enquadrado como estupro, de acordo com a lei brasileira.

Desde 2009, o artigo 213 diz: Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso: Pena – reclusão, de 6 (seis) a 10 (dez) anos.

Se você não acha nada demais em “passar a mão” em alguém sem o seu consentimento, você está praticando violência sexual ou estupro, como preferirem.

Este blogueiro, enquanto não houver alguma mudança léxica na língua portuguesa, continuará acreditando que não significa “partícula negativa oposta à afirmativa sim ”

O humorista norte-americano Louis CK tem um vídeo muito bom contando um caso que aconteceu com ele, vale a pena assistir:

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4 respostas para Na cultura do estupro, o não significa talvez

  1. Priscila disse:

    Reblogged this on Planet Randomness and commented:
    Não aguento, vou ter que repostar.
    Eu sei que o blog é novo e a gente ainda não definiu o nível da loucura que será permitida aqui, mas sinto que nós, seres humanos, de qualquer gênero, raça, credo, nacionalidade e cultura, devemos gritar, fazer e acontecer quando o absurdo passa na nossa frente.
    Eu confesso que não assisto pânico nem sei quem são as pessoas envolvidas nesse post, mas venho percebido um crescimento chocante de denuncias desse tipo. Não, não acho que está acontecendo mais agora, não acho que há algo nos tempos de hoje que está permitindo este tipo de abuso. Acho que finalmente pessoas do mundo inteiro, de diferentes cantos do planeta estão percebendo que em pleno século XXI não dá pra se ter atitudes e pensamentos machistas, sexistas, elitistas, racistas, ou separatistas de outra forma.
    Eu vou fazer um barraco, escarcéu, barulho, o que for necessário, toda vez que um absurdo desses passar por aí porque a impunidade é que o permite a disseminação da imoralidade.
    Acho que se todo mundo parar pra pensar pelo menos uma vez, já estaremos mudando o mundo. Se as pessoas pararem pra conversar com seus amigos sobre assuntos quentes como esse, talvez faça um “click” na cabeça de alguém que talvez não saiba que possui um pensamento tacanho.
    Eu acredito firmemente em diálogo aberto, sincero e com o intuito de abrir a cabeça de seus interlocutores e ouvintes pra soluções, problemas ignorados e novidades. Até quando a gente vai ficar fingindo que não vê, ouve ou percebe absurdos e abusos acontecendo na nossa frente?

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