O funk desce o morro pacificado

Isso é um baile funk. E aí elite, vai encarar?

Por Bruno Pavan

Mino Carta escreveu, algumas semanas atrás, sobre a “Imbecilização do Brasil”.

Mino já foi lembrado neste espaço pelas carinhosas palavras que destila sobre Civita II. em seu “Brasil”.

Em resposta ao seu editorial, a Socialista Morena Cynara Menezes escreveu: “Só Portinari é arte? Existe arte “menor” e arte “maior”? Em que tipo de arte você acredita?”

Nos últimos tempos, tudo o que faz mais barulho no Brasil culturalmente, veio de “baixo”.

No começo da década de 90, nascia o manguebeat em Recife. Uma mistura de ritmos tradicionais, rock e hip-hop que cantava a realidade da classe baixa na capital pernambucana de modo simples e sofisticado ao mesmo tempo: “Tô enfiado na lama É um bairro sujo Onde os urubus têm casas E eu não tenho asas”, cantou para todo o Brasil Chico Science e a Nação Zumbi.

Quase que ao mesmo tempo, o rap nacional tomava forma e invadia baladas caras de São Paulo. A musa inspiradora dos Racionais Mcs também era a favela Paulistana e a realidade dos negros.

Sobrevivendo no Inferno derrubou os muros da periferia na marra. “Esse não é mais seu ó… subiu/ Entrei pelo seu rádio, tomei, cê nem viu…” provocava Mano Brown.

Hoje em dia temos o Funk carioca e o brega do Norte entrando no horário nobre nas casas “de família” do Brasil.

Parece óbvio que, para entender o Brasil, é preciso saber o que a periferia fala. O que ela quer. O que ela cria.

Muitos, porém, fecham os olhos e consideram arte só o que acontece nas galerias do Jardim Europa. Ou de frente pro mar e de costas pra favela

Mariana Gomes é mestranda na Universidade Federal Fluminense (UFF) com sua tese: “My pussy é poder – A representação feminina através do funk no Rio de Janeiro: Identidade, feminismo e indústria cultural.”

Passou em segundo lugar.

Em seu trabalho, levanta pontos inquietantes para a elite “tradicional” brasileira.

Ao invés de estudar algum teórico europeu de qualquer coisa, busca entender o que está na esquina de casa.

O funk carioca conta, talvez, um pouco da história recente das favelas do Rio de Janeiro. O que antes eram músicas de exaltação ao tráfico, depois das UPPs nos morros os temas começaram a variar mais. Vai desde a liberação sexual de Waleska Popozuda até letras lúdicas como o recente “Ah lelek” (que inclusive virou jingle para vender carro de R$ 100.000) .

Os eternos saudosos vão se lembrar de como as coisas já foram melhores. As letras de Chico Buarque, as músicas de Tom Jobim, a atitude da Tropicália etc etc etc.

As Carolinas, porém, não conseguem enxergar que seus próprios ídolos não são os mesmos. Caetano subiu o morro e gravou “Funk Melódico” em seu novo CD. (Aposto que o Leblon achou bacana)

Chico Buarque, no seu show recente, respondeu a homenagem de Criolo que fez uma adaptação da música Cálice.

Paul McCartney está escutando Funk carioca como inspiração para o seu próximo trabalho.

A cultura popular aos poucos vai tomando o último lugar que tinha uma resistência maior: os bancos das universidades.

É o “creme” da sociedade (tentando) correr atrás do prejuízo.

Talvez esse seja o banho de povo sugerido por FHC para seu partido.

E aí, topam?

Ouça Funk Melódico, de Caetano Veloso:

Aqui a adaptação de Criolo à Cálice, de Chico Buarque, e a homenagem de Chico ao rapper:

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