A doce pretensão de Zecão e meu manifesto não-gourmet

Isto não é uma cocada gourmet…

Por Bruno Pavan

Zecão é um senhor que passa vendendo cocadas no meu bairro.

Com uma doce pretensão se intitula “O Rei das cocadas”.

Trabalha com um carrinho e vende seis de suas cocadas de colher por R$ 10.

Na sua camisa há o número de seu celular e a mensagem: “Venha logo que está acabando”.

Táticas de vendas avançadas de quem se garante na concorrência.

E a cocada é realmente sensacional.

Não há dia certo para o Zecão passar em minha rua, quando passa, não há sininhos, alto-falantes nem mesmo a trombeta do reino que ele lidera soa para anunciar a sua chegada.

Quem o vê grita pela janela e avisa os outros vizinhos.

Vira e mexe eu sou alvejado por coisas gourmet que aparecem por aí.

O frango assado, aquela iguaria que é melhor pelo cheiro que deixa pela vizinhança do que propriamente pelo seu gosto, chegou a estabelecimentos AAA.

Chefs inventam inúmeras táticas para deixar o frango “gourmet”. Um leva cinco horas para preparar a ave e cobra R$ 28 na Fradique Coutinho. Alex Atala também emprestou seu nome a iguaria para agregar valor. “Seu” frango de padaria custa R$ 30.

Alguns cinemas da cidade de São Paulo passaram a vender a pipoca gourmet.

O que a guloseima feita com milho, óleo e fogo pode reservar aos paladares mais sensíveis?

Azeite no lugar da famosa manteiga; com manjericão e parmesão; pipoca ganache.. e ZZZZzzzzzzZZZZZZZzzzzz…

A coxinha, aquela que você pode comer nos melhores e piores botecos de toda a cidade, já tem sua etiqueta gourmet.

Provavelmente em lugares aconchegantes, bem longe do centro da cidade, onde o Bar Estadão me apresentou à Coxa Creme anos atrás e me apaixonei por ela ali, encostado no balcão.

Você, amigo colaborador, certamente poderá me ver um dia adoçando a minha incoerência com um Java Chip em mãos, dentro de alguma Starbucks por aí.

Meio envergonhado eu digo: gosto do café de lá.

Gosto também de tomar uma cerveja especial algum dia desses.

O gourmet se torna pedante quando vira uma espécie de “modo de vida”.

Xico sá, sempre ele, já destrinchou o homem gourmet.

Aquele que sobe no salto e “arrota” caviar nos Facebooks, Instagrans e Foursquare da vida.

Quando a pretensão deixa de ter o gosto doce e humilde da cocada do Zecão e se transformar em algo que segrega.

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3 respostas para A doce pretensão de Zecão e meu manifesto não-gourmet

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