A revolta da caxirola e um “Fifa-se” para o Brasil

Troque-se o povo por cadeiras na geral

Por Bruno Pavan

O Brasil é um país cordial por natureza.

A tese de Sérgio Buarque de Holanda passa pela hospitalidade do brasileiro e a socialidade do nosso povo.

Nenhuma das grandes reformas nacionais vieram do povo. Todas elas foram de cima pra baixo. Nossa independência partiu do Imperador, a República foi proclamada por um Marechal e uma princesa aboliu a escravidão.

Tirandentes e Zumbi são lembrados em nossos livros de história como perdedores com boas intenções.

Dentro de todas as mudanças que foram impostas, o povo teve que procurar alguma coisa pra chamar de seu. Aos poucos, o futebol, que surgiu aqui como um esporte da elite, se aliou com práticas populares como a capoeira e a ginga dos “marginais” e foi sendo dominado pelas classes mais baixas.

Correndo muito tempo na história (esse editor não tem a pretensão de ser um historialista), o povo deu uma banana pra elite colocou no seu “ópio” uma personalidade própria.

A maior festa de futebol vai pousar por aqui em 2014. A Copa do Mundo, que este país já venceu cinco vezes, vai voltar pra onde já passou lá no início da década de 1950, logo depois da Segunda Guerra Mundial.

Mas essa festa tem um dono, ou melhor, uma dona. Ela se chama Fifa.

A Fifa impõe um padrão tal para suas competições ao ponto de todos os novos estádios (não vou chamá-los de Arena) ficarem com a mesma cara. Eu desafio o amigo colaborador a descobrir, vendo pela TV, a diferença entre o Mineirão, a Fonte Nova e o Castelão.

Pra mim todos eles tem “cara de Fifa”.

A dona da Copa do Mundo também não gosta de povo de verdade em seus eventos.

O Maracanã não tem mais a geral desde as obras pro Pan de 2007, que era o lugar que ficava na parte mais baixa do estádio em que o ingresso era mais barato e todos assistiam ao jogo de pé.

A cordialidade do brasileiro fez com que o povo assistisse essa agressão sem indignação. Assistimos os Índios da Aldeia Maracanã serem despejados pela PM carioca do prédio ao lado do estádio para se fazer um estacionamento.

Afinal, o Brasil não pode ficar mal com a opinião pública mundial.

Até o modo como os torcedores vão torcer é imposto pela mídia e pela Dona Fifa.

Caxirola é um instrumento desenvolvido por Carlinhos Brown para ser a nossa vuvuzela.

Uma ideia de alguma agência de publicidade, creio, para “mostrar a brasilidade e o ritmo de nosso povo”.

São os coxinhas querendo ser “raiz”.

Você não pode torcer com bandeiras porque atrapalham a visão de quem está atrás. Também não pode mais ficar em pé no estádio. Troque tudo isso pelas caxirolas e torça de acordo com a Fifa.

Mas… o povo brasileiro mostra que não é bobo quando todos acham que tudo está sob controle.

Ontem, no BA-VI da Fonte Nova, para protestar contra o time que perdeu por 2 a 1, torcedores do Bahia arremessaram suas caxirolas no gramado.

Claro que o bom e velho colonizado brasileiro dará as caras: “nossa, o mundo vai ver o Brasil como um país de mal educados. Paizinho de terceiro mundo mesmo.”

Tudo isso acontece porque a Fifa pode tentar impor o seu padrão em muitas coisas, mas o torcedor é um ser humano. A influência da Fifa ainda não chegou aí.

O Bahia provavelmente será punido pela atitude de seus torcedores. E é justo que seja.

Mas a história absolverá os tricolores.

É um espécie de vingança do Brasil orfão da geral. Do Brasil que está vendo o maracanã ser dado de presente para o Senhor X e seus estádios tradicionais serem tranformados em arenas umas iguais as outras.

Como foi dito aqui no Blog Impedimento: é o preço que se paga por tentar mudar o jeito de torcer no Brasil, que vem de décadas.

F… a impressão que o mundo terá do Brasil nesse caso.

Porque com todo o seu “padrão” já foi dito um sonoro fifa-se para o Brasil.

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2 respostas para A revolta da caxirola e um “Fifa-se” para o Brasil

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