Do outro lado da ponte – A herança do “sarará crioulo”

livres?

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O Fora de Foco publica mais um texto da colaboradora Simone Freire.

Mande também seu texto para foradfoco@gmail.com

“Lei Áurea, do Ventre Livre, Eusébio de Queirós, dos Sexagenários, quilombo, senzala, tambor, correntes, castigo, sangue, suor, dignidade roubada, prisão: escravidão”
No dia 13 de maio seremos bombardeados com manchetes sobre os 125 anos da assinatura da Lei Áurea, ou seja, da abolição do trabalho escravo no Brasil. Mas, meu querido reaça, ironicamente peço desculpas, pois sou obrigada a levantar um questionamento um tanto já manjado: “você acredita que a escravidão no Brasil acabou”?

Você vai me encher de argumentos dizendo que sim, que o mundo agora é outro, o negro não é obrigado a nada, trabalha, recebe salário, come e bebe. “Até faz faculdade, ora bolas!”. Eu posso te responder dizendo que as condições do negro e do branco no País não são as mesmas e tudo mais. “Na faculdade de Medicina da USP, e em muitas outras, não tem nenhum negro!”. Então, você pode rebater e dizer que você não tem nada com isso! Outros ainda vão me dizer que tudo faz parte de um processo histórico e que daqui a pouco negros e brancos, amarelos e azuis terão as mesmas condições socioeconômicas no futuro. #tosabendo, #sóquenão, #jácordou? #eikenãovaigostar

As coisas não são bem por ai e 125 anos é muito tempo meu caro. Se muita coisa não mudou de lá pra cá, de braços cruzados não dá pra ficar! Não se trata apenas da falta de acesso, desigualdade social, econômica e moral sofrida pelo negro (e aqui incluo os índios) na contemporaneidade. O buraco já está tão mais fundo que há uma constante aniquilação da herança cultural negra em que o negro já não quer se enxergar como tal ou não tem, muitas vezes, ideia do significado do sangue que corre em suas veias.

E os exemplos são atuais. Não estou falando de 125 anos atrás. Lendo a revista Carta Capital (nº 747) me deparo com questões importantes. E vejam, não sou eu quem faz as seguintes afirmações, mas a respeitada urbanista Raquel Rolnik. Segundo ela, a cidade de São Paulo “se vê como europeia, imigrante e até nordestina, mas [é] incapaz de reconhecer sua herança negra”. Me corrija se estiver errada, mas negro no Brasil é sempre associado à bandido e tem que alisar o cabelo pra se sentir aceito na sociedade. Coisas que parecem simples, mas tem muito significado.

Mais de um século da libertação dos escravos e um comercial – de uma instituição estatal – “prefere” colocar um ator branco para interpretar um escritor negro. Com felicidade e merecidamente, a mãe de santo Stella de Oxóssi, em abril, foi eleita para a cadeira 33 da Academia de Letras da Bahia. Veja bem, ela é a primeira ialorixá na instituição. Sim, depois de 125 anos da libertação!

A proposta aqui não é ser porta-voz de nada. Este blog é para os inquietos e eu sou uma delas. Todas as questões aqui citadas são discutidas e rediscutidas por uma parcela da sociedade. Principalmente a daqui, do outro lado da ponte, onde as consequências desta aniquilação da herança cultural batem com mais força. E dai vem a conclusão: de que a escravidão pode ter mudado de forma e de cor, mas existe e ainda causar muita dor! Isso, porque eu não vou entrar no mérito do trabalho escravo nas oficinas de costura das grandes marcas e em fazendas do interior do País, por exemplo.

Para alimentar o debate, deixo abaixo dicas de sites, blogs, reportagens que debatem a cultura negra no país. Cheguem pra somar! Críticas são sempre bem-vindas.

Simone Freire

Música: Sandra de Sá – Olhos coloridos https://www.youtube.com/watch?v=OQ3yhCVZqec

Dica: Cineclube exibe filmes de temática negra para marcar os 125 anos da libertação dos escravos http://migre.me/eq0lQ

Discussão feita pelo escritor Michel Yakini sobre material de propaganda da PM que esteriotipa o negro: http://migre.me/eq0u6

Blog Cidinha da Silva: http://cidinhadasilva.blogspot.com.br/

Pesquisa: Allan da Rosa, “Imaginário, corpo e caneta: matriz afro-brasileira em educação de jovens e adultos”: http://www.edicoestoro.net/pesquisas/allan-da-rosa.html

Sites:

Quilombo Hoje: http://www.quilombhoje.com.br/

Comunidade Cultural Quilombaque: http://comunidadequilombaque.blogspot.com.br/

Tambores dos Montes: http://tamboresdosmontes.blogspot.com.br/

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