Lula: governei sem odiar quem me odiou

assim como perdoamos a quem nos ofendeu

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Por Murilo Silva

“O Brasil mudou, não existe mais o país dos ‘inenpregáveis’. Eu fico imaginando o que pensa hoje o presidente que cunhou essa expressão, assistindo ao Brasil do pleno emprego”, foi assim que o professor Emir Sader abriu ontem, em São Paulo, o debate de lançamento do livro: “Lula e Dilma – 10 anos de governo pós neo-liberalismo”, editado pela Boitempo e pela Flacso Brasil.

Participaram do debate de lançamento no Espaço Cultural São Paulo, além do professor Emir Sader – organizador do livro; o economista Márcio Pochmann; a professora da USP, Marilena Chauí e o presidente Lula.

O livro se propõem a fazer um balanço dos dez anos de governo trabalhista.

Um balanço por parte dos intelectuais que se dedicam a estudar esse período da história brasileira que o cientista político André Singer chamou de lulismo.

Sader qualifica as mudanças dessa década, no Brasil e na América Latina, como uma “grande virada” depois das ditaduras e do neo-liberalismo da década de 90.

Pochmann exemplifica com números essa mudança. Ele lembra que o Brasil foi de 8ª economia do mundo na década de 80, e passou a ser a 13ª economia em 2000. Hoje o Brasil é a 6ª maior economia do globo.

Segundo Pochmann, o Brasil vive uma transformação dentro de sua curta história democrática.

Ele lembra que em 500 anos de história, o Brasil tem pouco mais de 50 anos de experiência democrática; e que nos últimos 10 anos, o país caminha de uma “democracia de elite para uma democracia de massa”.

Pochmann atribui as mudanças a coragem política do governo Lula em romper com a lógica de crescer primeiro para distribuir depois.

Segundo o economista, o livro representa um rompimento no “silêncio dos intelectuais” que passam a se debruçar sobre essa década.

Sader pergunta sobre o silêncio dos intelectuais do lado de lá: “cade o balanço do governo deles? Escrever eles sabem… Mas tem vergonha do que fizeram, não é teorizável ”

Pochmann e Sader se referem a uma década marcada pela distribuição de renda e pela criação de empregos. Uma década que criou a chamada “nova classe média”. Os 30 milhões de brasileiros que entraram para a comunidade do consumo.

Nova classe média que Marilena Chauí não só diz que não existe, como torce para que não exista nunca!

“Não há no Brasil, como diz alguns intelectuais, e como gosta de dizer aqui o presidente Lula, uma nova classe média. O que existe é uma nova classe trabalhadora”, defende a professora.

Marilena convida a jovem platéia que lotava o auditório a se transportar para a Europa dos anos 60, auge do Estado de bem estar social: “O trabalhador tinha emprego, tinha casa, tinha carro, saúde pública, educação pública de qualidade – os filhos iam para universidade ou para as escolas técnicas e ninguém dizia que eles eram de classe média, eles eram trabalhadores”.

Marilena Chauí considera a criação do mito da classe média um erro político. Já que a classe média tradicional representa um arauto do conservadorismo brasileiro.

“Eu odeio a classe média! A classe média é uma abominação política, porque é fascista. É uma abominação ética, porque é violenta. E é uma abominação cognitiva porque é ignorante”, diz a professora.

Lula – que foi ao evento só para assistir, mas não resistiu – reconheceu que há contra ele um ódio de classe por parte da imprensa e da elite: “parece que existe alguma coisa assim como um ódio mesmo, um ódio de classe.”

“Em 2007, a elite e a imprensa diziam que o governo tinha acabado. Eu falei que não faria como Getúlio, que deu um tiro no peito. Também não faria como o Jango, que foi embora. Hoje é fácil falar bem do Juscelino, mas na época, os mesmo que não gostam de mim diziam que ele não podia concorrer, se concorresse não podia ganhar, se ganhasse não podia tomar posse, e se tomasse posse não podia governar. O ódio deles é contra o meu sucesso, seu eu fracassasse eles iam falar bem de mim: ‘coitadinho do operário, ele não tava preparado, não fez a nossa escola…’ ”

Lula criticou duramente a imprensa, que ele identifica como porta voz desse ódio de classe, apontado por Chauí: “imagina o investidor que chega de Londres ao Brasil e vê o Globo, a Folha, a Veja, a Época… ele saí correndo. Parece que o país acabou!”

“Como é um grande editor de um jornal desse País, daqueles que sabem tudo, aquele cara porreta, como é que ele compreende a geração de 22 milhões de empregos nos anos que tem mais desemprego no mundo?”, pergunta Lula, provocando risos da platéia. Risos que destoam do mal humor contagiante que exalava do ‘cercadinho” da imprensa, reservado bem de frente ao presidente.

Lula dirigiu uma especial deferência a Folha de São Paulo: “Tem um jornal que está tentando agora me transformar num lobista. Não é fantástico? Não sou lobista, não sou conferencista, não sou consultor”, disse Lula.

“Cobro caro e não digo quanto cobro. Se eles pagam até para ouvir governantes fracassados, tem que me pagar bem. Se quiserem saber quanto eu cobro, me contratem”, completou, sobre as palestras que faz.

Lula disse ainda, que não governou para dar resposta aos jornais, e minimizou o peso da imprensa: “O Gorbachev passou sete anos saindo todo o santo dia na capa de todos os jornais do mundo. E depois do que ele fez… O que aconteceu com o ‘Novo Homem do Ocidente’? Virou uma garrafa de vodca nos braços do Yeltsen.”

O presidente reconhece o ódio de classe, reconhece quem o propaga, mas acredita que triunfou sobre ele: “O maior legado do meu governo é ter sido republicano. Foi um governante provar que era possível governar sem odiar aqueles que o odiaram.”

Se Gorbachev foi saudado pelas manchetes e condenado pela história, Lula parece esperar o efeito inverso. E o professor Emir Sader demonstra confiança nesse propósito: “a próxima edição desse livro será, certamente, o balanço da segunda década de governo do PT”.

Serviço:

O livro esta a venda por 30 reais. E ainda essa semana, segundo o Professor Emir Sader, estará a disposição do público, gratuitamente, na internet.

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Sobre Murilo Silva

Jornalista por acidente.
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