A bela do Metrô

 

Por Bruno Pavan

 

Desde que deixei o carro na garagem o comecei a ir trabalhar de metrô, reparo mais nas pessoas ao meu redor.

 

(Não, não deixei o carro na garagem porque estou preocupado com o meio ambiente… Deixei porque o estacionamento de onde eu trabalho está custando R$ 300 por mês. Só por isso)

 

A vida em SP acontece no metrô.

 

Tem o cara que vende bala dentro do trem e que consegue guardar tudo em fração de segundos antes que abra a porta da próxima estação que ele sabe que terá segurança.

 

Tem o executivo moderno que, esse sim, deixa o carro na garagem por preocupação ambiental (tudo bem que ele anda duas estações fora do horário de pico, mas isso é outra história)

 

E tinha a morena na minha frente hoje…

 

Depois de uma quarta-feira amarga, em que um maldito paraguaio bem que tentou, mas não conseguiu calar o Pacaembu, ela era um prêmio para este editor.

 

A escondia atrás de meu livro, de vez em quando ela aparecia por cima dele.

 

Lábios carnudos, olhos castanhos e cor de Sonho de Valsa…

 

Uma elegância verdadeira e despreocupada.

 

O locutor anuncia a estação. A porta abre. Toca o sinal. A porta fecha.

 

Percebo que a musa sentada a minha frente está com sono. E muitas vezes o sono a vence.

 

A cabeça dela despenca alguns centímetros. Logo ela acorda e se recompõe.

 

Mesmo assim ela mantém um equilíbrio digno de realeza.

 

Entra o locutor. A porta abre. Toca o sinal. A porta fecha.

 

Páginas e estações depois ela já se misturou com a protagonista do romance que eu leio.

 

Éve, a personagem, é uma plebeia linda.

 

Por cima do livro eu a olho de novo. Mas ela está dormindo. Volto ao livro que já não é meu, é dela.

 

O locutor interrompe meu pensamento que já vai longe. Estação Hebraica-Rebouças, ele diz. A porta abre. Mas dessa vez ela se levanta e sai. A porta fecha.

 

Nossa despedida é rápida. Uns cinco segundos até ela sair do meu campo de visão.

 

Ela é alta, deve ser modelo, eu suponho na hora.

 

O trem volta a andar e eu volto ao livro.

 

Éve, meu caro Balzac, não é mais quem você imaginou.

 

Ela agora é a bela do metrô.

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3 respostas para A bela do Metrô

  1. “Lábios carnudos, olhos castanhos e cor de Sonho de Valsa…”
    Cara, não existe uma mulher assim, tá decidido. Simplesmente não existe.

  2. Pingback: Dentro de sua mochila… |

  3. Pingback: Tenha sempre um chocolate no bolso |

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