A “nova classe média” não existe

Ela odeia a classe média, e ninguém pode culpa-la por isso… Mas quem é essa tal classe média?

Por Murilo Silva

Como está assinado logo à cima, meu sobre nome é Silva. Mas não é qualquer Silva, meu caro colaborador, é o mais comum de todos os Silvas.

Minha família Silva, natural do interior do estado de São Paulo, é um autêntico retrato da evolução econômica brasileira nos últimos 50 anos.

Meus avós, trabalhadores rurais, fizeram a migração do campo para cidade no meio da década de 60.

Migraram no exato momento que a linha populacional do campo cruzou a linha urbana; quando a maioria da população – até então rural – passou a dar lugar a um Brasil majoritariamente urbano.

Os filhos dos meus avós – meu pai, meus tios – ingressaram na indústria em meados de 70.

A indústria que demandava essa mão de obra. Essa demanda, que proporcionara o grande êxodo rural uma década antes.

Eles se tornaram operários na esteira do milagre econômico do Governo Médici, que proporcionava os empregos ainda que há um grande custo social. O custo da precarização dos direitos e da criminalização do movimento sindical.

Desde o engenho da Casa Grande, a agricultura dava as cartas no Brasil.

Nos anos 80, a indústria foi quem teve seu apogeu, alcançando 45% do PIB.

De lá para cá, a indústria perdeu seu protagonismo na economia brasileira para o setor de serviços.

Hoje, os serviços correspondem a 69% do PIB, e emprega 70% da mão de obra disponível.

Mas uma vez a família Silva se presta como termômetro dessa transformação.

Meus primos e eu, nos tornamos profissionais liberais.

Prestadores de serviço: enfermeiros, professores, engenheiros e… jornalista (no singular).

Mas isso implica em uma “ascensão” social?

Seriam meus primos e eu, os bandeirantes ”da Silva” nessa “nova classe média”?

Marilena Chauí – no impagável vídeo que você pode ver aí em cima – diz que não. E esse editor concorda plenamente com ela.

Não houve ascensão alguma, o que houve foi uma mudança no eixo macroeconômico.

O Brasil fez o caminho dos países desenvolvidos e entrou em uma era pós-industrial. Esse é o fato.

Se olharmos para as bolsas de salários de hoje teremos algumas surpresas:

Meu pai é fresador ferramenteiro: salário médio segundo o Datafolha 4.117.70 reais, podendo chegar à 6,393 reais/mês.

O filho bacharel é jornalista… Meu salário se quer é cotado pelo DataFOLHA, o piso salarial em São Paulo, o melhor deles, o de assessor de imprensa, é de: 3.928.00 reais.

O salário médio de um eletricista de manutenção em SP é de 3.050.60 reais.

Muito próximo do advogado pleno, que ganha 3.969.30; e do enfermeiro hospitalar que ganha 3.908.00; e muito mais que o do professor da rede pública que ganha 1.737.60 mês, por carga horária de 40 horas semanais.

O professor aliás, ganha um pouco mais que o pedreiro: 1.225.80 reais, em média.

O valorizado mestre de obras, ganha 5.384.50 reais em média, mas pode chegar até 9.776.80 reais; muito mais que o salário médio do engenheiro civil júnior, 4.428.60 reais.

Não inveje o operário, meu bom reaça, não é esse o caminho.

O caminho é descer do pedestal, da condição “petulante” e “arrogante” que Chauí identifica no carácter dessa “classe média”.

Dos anos 80 para cá, o operário urbano acumula mais de 30 anos de luta. Luta de classe.

Hoje pode se dizer – como disse Chauí no evento onde o vídeo foi gravado – que a produção de conhecimento foi totalmente absolvida pelo capital. Nada mas difere quem vende a força de trabalho de quem vende um determinado conhecimento ou técnica.

É uma “nova classe trabalhadora”, como sentencia Chauí.

O dentista; o médico; o advogado e o engenheiro, estão muito próximos do operário urbano clássico – muito mais do que costumam admitir. Para além do carnê do carro; do carnê do apartamento; da TV por assinatura e da fatura estourada do cartão de crédito, a ambos, só resta a prole.

O trabalhador liberal é o novo proletário.

Portanto, uni-vos!

Anúncios

Sobre Murilo Silva

Jornalista por acidente.
Esse post foi publicado em Brasil, Economia, Mídia, Política, videos. Bookmark o link permanente.

6 respostas para A “nova classe média” não existe

  1. Pingback: Sempre haverá uma nova área VIP |

  2. Pingback: O que os “desocupados” fazem por você? |

  3. Pingback: Crise da mídia: o dinheiro mudando de mãos |

  4. Pingback: Comportamento em xeque: alunos do ”Band” querem usar saia |

  5. Pingback: O jornalista com Síndrome de Estocolmo |

  6. Pingback: Empatirol: o remédio pro século XXI |

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s