Sempre haverá uma nova área VIP

 

“Que coisisquesita esses coxinha…”

Por Bruno Pavan

Gourmet e VIP são palavras muito usadas nessa triste temporada em SP.

O pingado virou “Café Latte”.

Não se come mais na cidade, se degusta.

Nada se mistura, tudo se harmoniza.

Xico Sá, um dos grandes fomentadores intelectuais deste blog, nos entende.

Mexeram no ovo colorido deste simples editor.

Mexeram na inocente coxinha.

Não passarão da cocada do Zecão.

Não existe nova classe média no Brasil.

Muito menos uma nova elite.

O que existe é um novo grupo de deslumbrados.

Os vilões do meio ambiente, para os deslumbrados, são os pobres que andam de carro.

Esse grupo foi bem explorado por essa matéria da Folha, de Chico Felitti.

Os vilões dos costumes, para este editor, são esses que se denominam “VIPs”.

Agora que mais gente vai ao cinema, inventa-se os cinemas VIPs.

O filme é o de menos quando se pode ter uma poltrona de 110 cm revestidas de couro com um abajour exclusivo e um garçom a postos a servir sushis e cervejas especiais ao cliente.

Mimos para deixar Al Pacino e Robert de Niro avulsos na tela do cinema. (Tela? Que tela?)

Assim como existe uma demanda pronta para consumir geladeira, carros e apartamentos, existe também os que, para se diferenciar, desejam serviços cada vez mais exclusivos.

No andar de cima da academia existe um espaço onde só entra quem tem “personal trainer”. No andar de cima do Salão de cabeleireiro, existe um espaço diferenciado® onde você pode tomar seu suco de tomate exclusivo.

É sempre o andar de cima.

“Você fez por merecer” dizia uma propaganda de carro pouco tempo atrás.

Até o gesto mais altruísta já diferencia os mortais dos “VIPs”.

Agora você pode doar sangue, pagando 25% a mais, e ter direito ao famoso “Brunch” que nada mais é do que um café da manhã reforçado, como dizia a sua mãe.

A analogia do caipira, que chega à cidade grande e se vê deslumbrado com elevadores, prédios altos e escadas rolantes, poderia ser tranquilamente utilizada para explicar os novos VIPs brasileiros.

Mas seria uma tremenda injustiça com essa instituição nacional tão despretensiosa e simpática.

O caipira (ou matuto) passaria a perna no mais sofisticado Zé Coxinha paulistano.

Afinal, por que ele pagaria mais por um corte de cabelo que serve suco de tomate?

O mercado gourmet, como tudo o que faz o nosso “querido” capitalismo, serve para reforçar o sentimento de Casa Grande e Senzala.

Mostra para os de baixo que sempre terá um andar de cima.

Por mais que você mereça, você saiu atrás.

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5 respostas para Sempre haverá uma nova área VIP

  1. Mas meu bom Bruno, veja bem. Você está postando no wordpress, tem neguinho que não possui computador. Você sabe se expressar (e bem). Tem gente que não terá nunca essa habilidade por falta de acesso. Há sempre uma área vip, é do jogo capitalista. Vou te confessar: é bem legal a poltrona mais larga e o serviço exclusivo se você paga por isso com um dinheiro honesto. O grande problema, e acho que é onde você acertou mais, é o deslumbramento de todo pobre de espírito, essa gritaria dos mendigos estéticos. Esses estão, perigosamente, se transfomando numa turma grande a beça.

    • brunopavan disse:

      Com certeza, meu caro. O que eu não gosto do jogo do capitalismo é que sempre se usa isso para construir, mesmo que de modo artificial, esse anda de cima.

      Você poderá me ver, por diversas vezes, tomando o Cafè Latte da Stabucks. Eu gosto. E me dou bem com essa incoerência. Não sou de gritar palavras de ordem contra o capitalismo, sei que a guerra fria já acabou.

      Mas qual é o motivo de se fazer uma coxinha gourmet? A coxinha, aquela do boteco, não é boa o suficiente? Se colocam em uma elite cultural que nem sempre é verdadeira.

  2. Pingback: A Virada Cultural e a plenitude da Cidade |

  3. Não entendi a relação disso que você escreveu com a luta de classes (a qual já não é mais luta de classes, e sim “sentimento de casa grande e senzala”).
    Não vi relevância nenhuma. Você só está dançando na ciranda da Veja São Paulo. E ainda reforçando o mito americanizado do caipira. O caipira tem um universo dentro dele. Quem falou que ele fica “deslumbrado” com a metrópole? Ele fica é com medo.
    Abraços Libertários

    • brunopavan disse:

      É exatamente isso… O paulistano que se diz tão avançado, se deslumbra com “áreas vips” por aí. Na verdade o texto é uma ironia. Os novos ricos paulistanos adoram coisas que se rotulam VIPs, só pra se diferenciar dos outros. A relação com a luta de classes é essa… sempre vai ter uma nova área VIP acima dessa que você está, só pra dizerem que você não é tão importante assim.

      Respeito muito mais o caipira do que o bobão paulistano. Não entendi a ciranda da Veja São Paulo. Enfim…

      Abraços

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