Protestometro

Proteste aqui

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Por Murilo Silva

De uma incógnita senhora no metrô: “A gente sabe que o professor ganha mal, não é valorizado… Mas tem que vir fazer protesto na Paulista? Parar a cidade…

Esse editor trabalhou um bom tempo como “rádio-escuta” para uma grande emissora de São Paulo.

A “rádio-escuta” é uma sala de loucos: uns oito televisores ligados em canais diferentes; uns 12 telefones tocando o tempo todo; uma dezena de computadores com todos os portais abertos, de notícias e públicos; e mais o rádio scanner, que pega as frequências dos bombeiros e, as vezes, da polícia.

Nessa janela aberta para o caos da cidade, ainda como estagiário, eu aprendi muito. Sobretudo, aprendi o que é, e o que não é, notícia para os chefes de reportagem.

Por exemplo: entre janeiro e março de 2011, quando lá trabalhei, a Polícia Militar registrou mais de 60 ocorrências de “perturbação da ordem e obstrução de vias públicas” pelas periferias de São Paulo. Eram protestos, meu caro reaça. Protestos de uma periferia em baixo d’água.

Enchente, falta de lux, falta de água, deslizamento de encosta, falta de iluminação pública, falta de sinalização, falta de passarelas – que resulta em atropelamentos. Tudo isso motiva confrontos constantes nas periferias de São Paulo.

Naquele verão, mais de 60 barricadas se ergueram em três meses – isso foi o que passou pela nossa central de informações – é quase uma Primavera Paulista!

Mas lá, como disse antes, eu aprendi o que é e o que não é notícia. E quebra pau entre polícia e favelado não é.

A lógica de um protesto é chamar a atenção das pessoas, colocar um debate na pauta social. O salário do professor é um interesse que transcende a categoria, é um problema público, é um problema seu: “que não tem nada que ver com isso”.

A mesma lógica serve para as udenistas marchas anti-corrupção; assim como para a marcha da maconha; as minorias todas; os trabalhadores em geral e; é claro, os estudantes – que ontem encamparam com coragem uma manifestação contra o aumento abusivo da passagem de ônibus e metro em SP.

Como bem observou Leonardo Sakamoto, eles estavam defendendo a liberdade de ir e vir. Já que: “Protestar não restringe o direito de ir e vir. Aumentar a passagem sim“.

O que esperava o caro reaça? Que eles fossem protestar no Sambódromo do Anhembi?

Se a Paulista é a avenida por onde a sociedade passa, é lá que eles tem de estar.

Por maior que seja seu esforço para se manter a “distância“, meu bom reaça, como gosta de lembrar esse blog: ser cidadão não é como ser consumidor – não um existe SAC.

O “Não Proteste Aqui“, que o Kassab tentou implantar na Paulista é antes de mais nada resultado da profunda ignorância política da elite paulista.

A Democracia, caro reaça, é um regime político em estado líquido. Toda vez que se tentar condicioná-la em um recipiente menor do que seu o volume exige ela irá transbordar.

Não se pode evitar, é da sua natureza.

Vai chegar o dia em que além dos professores; dos bancários; dos udenistas; dos gays e dos estudantes, o pessoal do Jardim Pantanal (que fica 60 dias por ano embaixo d’água) vai resolver fechar a Paulista.

Ai meu amigo, o trânsito vai ser a última das suas preocupações.

***

Não deixe de ler:  O que os “desocupados” fazem por você?

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Sobre Murilo Silva

Jornalista por acidente.
Esse post foi publicado em Brasil, Crônicas, Mídia, Política, Uncategorized. Bookmark o link permanente.

3 respostas para Protestometro

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