Crise da mídia: o dinheiro mudando de mãos

o futuro? A Deus pertence ...

o futuro? A Deus pertence …

Por Murilo Silva

Esse editor é jornalista profissional. A afirmação não trata de uma prorrogativa – esse Fora de Foco é um blog colaborativo, aberto para quem estiver afim de pensar. A afirmação, portanto, apenas atesta uma condição profissional, uma condição cada vez mais preocupante.

Meus colegas e eu, temos sofrido em São Paulo uma constante onde de demissões e de precarização do trabalho que se arrasta desde o final do ano passado.

Como bem calculou Bob Fernandes, em seu comentário na TV Gazeta, ontem: “em um ano passarão de 3 mil as demissões, e isso a se contar apenas o mercado de mídia/imprensa no sudeste e sul”.

Os jornalões – e é bom dizer, me refiro a Folha e ao Estadão – apesar da inegável perda de protagonismo político e de estofo econômico, insistem em ostentar o que lhes resta, a prepotência que lhe é característica.

Ambos, em um absoluto desrespeito aos profissionais demitidos e a inteligência do leitor, se saíram com o discurso da “otimização“.

O Estadão chegou a lançar uma campanha para mostrar as vantagens de um jornal “enxuto” – um jornal que permite o leitor levar a Lady para passear.

A falacia não resiste as páginas 2 e 3 do Estadão, onde os editoriais riquíssimos em mau-colesterol persistem em manter a áurea secular do jornal.

Outra saída recorrente dos barões da mídia tem sido terceirizar o problema para o ministro Guido Mantega, colocando as demissões na conta do PIBinho.

Acontece que o mercado publicitário – que sustenta a mídia – vai muito bem, obrigado.

Ano passado, foram investidos em mídia 37 bilhões de dólares. Isso coloca o Brasil entre os cinco maiores mercados publicitários do mundo.

O mercado publicitário brasileiro cresceu 6% ano passado (dados da Inter-Meios).

Ou seja, 6 vezes mais que o PIB, que foi inferior à 1%.

O problema, caro colaborador, é a distribuição dessa grana. A TV aberta leva a maior fatia, 19%, cerca de 50% disso vai para uma única emissora – que você deve imaginar qual é.

Os jornais tem cerca de 11% do volume total de publicidade, é a segunda maior fatia – mas teve crescimento perto de zero, 0,6% – o PIBinho dos Frias é menor foi menor que o PIBinho do Mantega.

As revistas tiveram crescimento negativo, (viram sua participação no bolo diminuir) em cerca de 5%. A conta deve chegar logo. Grandes demissões se anunciam na Editora Abril, a maior do País. O corte deve vir nas próximas semanas – até dez títulos podem desaparecer.

Uma bem informada fonte do mercado publicitário disse a esse blogueiro que, dois andares inteiros do imponente prédio da editora Abril, na Marginal Pinheiros, podem ser fechados.

Mas o que mais preocupa os meios tradicionais não são os números de 2012, nem mesmo os de 2013, mas os de 2014, 15, 16, 17…

A internet teve um crescimento relativamente modesto no ano passado, 4,3%. Mas nos EUA, só no primeiro trimestre desse ano, a internet moveu 9,6 bilhões de dólares, um crescimento de 15% com relação ao mesmo período do ano passado, (o PIBinho deles foi de 2,2%).

TV

Se para o papel as mudanças são óbvias, na TV o impacto também já se faz sentir – e esse é um fato que transcende a pergunta: “a internet toma audiência da TV?”.

A internet já mudou a forma como as pessoas veem TV no mundo. A programação ”on demand” já ameaça o cabo nos EUA (aqui, o grande carrasco da TV aberta ainda é o cabo).

O “on demand” é o serviço oferecido por empresas como a Netflix. Funciona como uma estante virtual – o cidadão vai lá pega o que quer ver e vê a hora que quer.

O mercado tem ganho força, e já produz conteúdo próprio, é o caso da badalada série ”House of cards”, da Netflix.

Vossa excelência, o leitor

Se para os jornalistas e os produtores de conteúdo o futuro é incerto; para o leitor, e para o telespectador, o futuro é muito promissor.

A pulverização do conteúdo abre uma importante janela para a democratização da comunicação. A televisão como conhecemos – com a programação fecha em uma “grade” – está com os dias contados. Do que conhecemos, só o ”ao vivo” deve sobreviver.

Quanto ao papel, pode acabar ou não; mas a questão não é essa. A questão é: como jornalismo pode sobreviver a idade do papel?

Particularmente, esse editor acredita que sim, o jornalismo sobrevivera. Pode sobreviver, mas de forma diferente. Tem que ser plural, tem de se afastar das estruturas rígidas, tem de se adaptar a uma nova correlação de forças.

A imprensa como ”quarto poder”, deve acabar. A sociedade como um todo deve absolver esse papel.

O jornalismo sobrevivera, a página 3 do Estadão, provavelmente, não.

***

Veja aqui – que o jornalista tem sua parcela de culpa. Jornalista não faz greve porque não se considera trabalhador proletário. Jornalista brasileiro chama patrão de colega.

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Sobre Murilo Silva

Jornalista por acidente.
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7 respostas para Crise da mídia: o dinheiro mudando de mãos

  1. Tomara que você esteja errado. De qualquer forma, sinto muito pelo seu mercado profissional. E pela menor informação de qualidade que vai acabar sendo uma consequência do que você fala.

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  7. Gabriel disse:

    eu realmente acredito que não há mais espaço para uma tv de grade fechada com tantos sistemas sobre demanda disponíveis e acessíveis, YouTube, facebook e twitter mostram o poder que as pessoas têm de escolha face ao bem estruturado sistema tradicional. No fundo o que as pessoas gostam É de mudança, novidade e coisas a serem descobertas por mais que a mídia tradicional tente reverter, o processo é inevitável. Não acho ruim e não acredito que faltará espaço e salário para os trabalhadores do jornalismo. As pessoas continuaram precisando de notícias e os patrocinadores de quem os divulguem e promovam, portanto se você acha que o mundo do jornalismo está acabado com certeza quem acabou foi você. Na verdade tudo está acabado para aqueles que não evoluem. Hoje você pode utilizar seu próprio canal seu próprio facebook e fazer um jornal ser brilhante e ao mesmo tempo com recursos pequenos. possivelmente em pouco tempo se o seu trabalho foi bom outras pessoas se interessarão e utilizarão para promover a si mesmas.

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