O jornalista com Síndrome de Estocolmo

o primeiro estágio: a negação

o primeiro estágio: a negação

Por Murilo Silva

Esse blogueiro não gosta de se repetir. Mas vamos lá:

Semana passada, esse Fora de Foco escreveu sobre a crise da mídia – que é mais que uma crise, é uma mudança definitiva de escala – o dinheiro está mudando de mãos.

Depois, esse blog falou de um tipo de jornalismo que não informa e que não forma o cidadão, um jornalismo inútil, que merece desaparece, e provavelmente vai.

Mas faltou falar do papel do jornalista em si, enquanto classe, enquanto categoria profissional.

O jornalista, como já dissemos aqui, é um exemplo daquela ”classe média” que não se conforma com a condição de “classe trabalhadora”.

Na madrugada de hoje, na TV Brasil, foi ao ar uma entrevista no Observatório da Imprensa com João Roberto Marinho.

O veterano Alberto Dines fazia questão de frisar o título “Jornalista” João Roberto Marinho, todo tempo.

Curioso.

Acima do Equador ninguém chama Rupert Murdoch de jornalista. Imagino que ele não se sinta nenhum pouco frustrado por isso.

Mas é típico entre nós considerar o patrão como um igual.

“Ponte Jornalista Otávio Frias de Oliveira” – O próprio Dr. Frias nunca se considerou jornalista; fazia questão de se autodenominar empresário.

Chamar o patrão de colega – como observa Mino Carta – é um péssimo hábito. Nos enfraquece como trabalhadores.

Mas no atual cenário, a coisa ganha contornos de “patologia de social”.

O jornalista Bruno Toturra, em seu site Casca de Besouro, causou um grande estardalhaço num desabafo que publicou. A polêmica girou entorno do texto intitulado ”Ficaralho”, uma referência a expressão “Passaralho” (demissão em massa).

Para Toturra, a coisa pra quem fica é tão ruim quanto para quem é demitido, já que o número de pessoas diminuí, o de trabalho não. O resultado é a precarização do trabalho.

A ”espada sobre a cabeça”, faz com que os jornalistas passem a ser ainda mais tolerantes como os baixos salários; com a flexibilização dos contratos de trabalho – fora do regime da CLT; com o acumulo de função e etc.

O que impressiona, é que alguns desses jornalistas, que estão trabalhando com a faca no pescoço, desenvolveram uma espécie de “Síndrome de Estocolmo“.

Se afeiçoaram aos que seguram a faca. Tem por eles um sentimento que ultrapassa a compreensão – “não tem jeito, ele precisa demitir” – e chega a uma espécie de solidariedade pela empresa.

Tenho visto colegas jornalistas usarem seus perfis pessoais em redes sociais para encampar defesas contundentes aos patrões.

Eles criticam as “ondas de boatos” das quais alguns veículos estão sendo “vítimas”. Vítimas!

A Abril e a Record são dois exemplos de “vítimas” das ondas de boatos.

Na Record ”os boatos” de crise já resultaram em quase 1000 demissões, e na opinião da empresa, seguem sendo apenas boatos.

Em entrevistas a impressa o poderoso pastor Honorilton Gonçalves tem dito que: “agora sim, a empresa está pronta para concorrer com a Globo.”

É risível. Quer dizer que o grande empecilho da Record em ”seu caminho rumo a liderança” eram os colaboradores demitidos?

A Abril já anunciou ao mercado uma “reestruturação”, já demitiu executivos; e tem feito reuniões a portas fechadas com editores e executivos para fundir núcleos de produção.

Qualquer repórter, minimamente capaz, que fosse cobrir uma situação como essa em outra empresa, de outro segmento, veria nela sinais de crise, e os tornaria público.

O discurso do boato tem uma razão de ser. Nenhuma empresa se admite deficitária ou em crise para o mercado.

O motivo é simples; crise atrai crise.

Imagine que a Veja vai negociar aquele anúncio de página dupla com uma grande montadora.

Se Victor Civita Neto for visto por aí de pires na mão, o diretor de marketing da montadora irá se perguntar: ”se baixarmos o preço do anúncio, eles terão condições de recusar?”

O mesmo vai acontecer quando os CEOs da companhia se sentarem com os banqueiros (toda grande empresa gira passivo financeiro).

Será que o banco vai dar mais ou menos limite a editora? Vai dar mais ou menos prazo? Vai pedir mais ou menos garantias? Vai oferecer juros menores ou maiores?

Ou seja, para o patrão faz sentido evitar o inevitável, mas para o funcionário a transparência é muito mais interessante. Colocar as cartas na mesa, lutar pelos empregos, e pelas condições de trabalho.

É hora de contrapor a redação ao andar de cima.  É hora de nós abraçarmos, abraçarmos uns aos outros, e não de abraçar o patrão.

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Sobre Murilo Silva

Jornalista por acidente.
Esse post foi publicado em Brasil, Economia, Mídia, Política. Bookmark o link permanente.

3 respostas para O jornalista com Síndrome de Estocolmo

  1. Saiury Izumida disse:

    Precisar demitir ou escolher demitir?

  2. Pingback: Erramos, pero no mucho |

  3. Pingback: Carta aberta aos colegas da Globo |

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