Erramos, pero no mucho

a oração do homem moderno

a oração do homem moderno

Por Murilo Silva,

Em meio a crise do jornalismo, com milhares de demissões em massa nas últimas semanas – crise contada em verso e prosa por esse blog aqui, aqui, e aqui. A mídia se viu no meio de mais um turbilhão nos últimos dias.

A imprensa vislumbrou um lance do futuro nessa semana.

Ela perdeu, definitivamente, o monopólio da palavra.

Perdeu o monopólio do quarto poder.

O poder de gerar crises.

Os jornais escritos e televisivos do dia 12 de junho são indissociáveis do massacre do dia 13 de junho, na capital paulista.

Como bem descreveu Rodrigo Vianna, as famílias pediram ordem, Alckmin deu, duas doses!

Mas o que proporcionou o recuo, depois do dia 13?

A agressão contra os colegas jornalistas – cujo símbolo se tornou a repórter da Folha Giuliana Vallone? (veja aqui reportagem da TV Folha.)

Esse blogueiro receia que – nós, jornalistas – não tenhamos toda essa importância para nossos patrões – muito embora, os consideremos tantas vezes como colegas.

Mas porque uma mudança tão sensível no discurso?

“Só” – e repare bem nas aspas, por que não é “só” – mas “só” a violência policial resume a mudança do discurso?

Será que um movimento, para se legitimar, tem de ser purificado com sangue? Tem de passar por um batismo violento? Será uma herança da nossa cultura hebraico-cristã? O sacrifício?

Pode até ser que sim, mas esse blogueiro não irá tão longe nesse post.

O recuo se deve, basicamente, a duas coisas:

1- Os meios perceberam que estavam perdendo o bonde da História. O bonde da História é fundamental para esse negócio, que vive em larga medida de um patrimônio imaterial, a credibilidade.

Um exemplo: no início de 84, o fim da ditadura era eminente. E a abertura não tinha só o apoio da esquerda, mas da alta burguesia nacional.

O modelo econômico do governo militar, cunhado em um Estado grande e controlador, não coincidia com o novo modelo de desenvolvimento proposto para o mundo, o neoliberalismo.

Um dos jornais que saíram na frente em entender o fim de um regime, e o início de outro, foi a Folha.

O ”Projeto Folha” forjou um jornal pluralista.

Visionariamente, Otávio Frias de Oliveira, percebendo o nicho que se erguia, posicionou o jornal – que outrora serviu ao regime – na campanha pelas ”Diretas”.

Assim a Folha se tornou o maior jornal do País, junto com a Nova República.

Na quinta-feira (13), depois do massacre da PM, o jornal, assim como os outros, percebeu que estava sozinho na contramão.

Uma pesquisa do Datafolha mostrou que dessa vez, a elite econômica e pensante do país, não poderia contar com a boa e velha cordialidade do brasileiro.

A pesquisa mostrava, que independente do modo, a priori – e é isso que conta – a população reconhece a legitimidade da manifestação, e se solidariza com ela.

O Datenão já tinha notado isso no ar, literalmente no ar, no dia anterior. (como você pode ver nessa imagem que fala mais do que mil palavras).

a grande realidade

a grande realidade

Isso refletiu nas reuniões de pauta pelo Brasil. E na quinta, dia 13, os manifestantes já estavam falando no Jornal Nacional, coisa que não aconteceu dia 12.

Mas esse é um lado; o mais obvio da história, contudo eu havia falado em dois.

2 – Começou uma disputa que à imprensa muito interessa. Quem ganha e quem perde com as manifestações.

A questão é 2014.

Quem ganha mais politicamente com essa revolta? PT ou PSDB?

Os dois perdem? Isso fortalece uma terceira via?

Qual é o desdobramento eleitoral disso?

O desdobramento eleitoral, como já dito aqui, é o único que importa numa sub-democracia como a nossa. Acontece que isso não esta na pauta dessas pessoa que tá na rua.

Para apostar, é preciso recuar um pouco, analisar o lance.

Mais cedo, Arnaldo Jabor chocou o século XIX – que persistem em coexistir no Brasil em pleno o século XXI – ao admitir que errou. Ao admitir que os manifestantes não são vândalos, baderneiros e desocupados.

Jabor não demorou para se compadriar do movimento. E iniciar sua pauta!

Precisamos nos levantar “contra a PEC 37”, contra os “desmandos da rodovia Norte e Sul”, em fim, contra a patranha do PT!

O “outro lado”, também se posicionou.

Luís Nassif, um jornalista responsável, e progressista, se apressou a entrevistar o prefeito Haddad.

Uma entrevista feita basicamente para o prefeito explicar o movimento (que ele não entende) e sobretudo, para se explicar: como Ele tentou negociar, como Ele abriu as portas da prefeitura, e como Ele ficou chocado ao perceber que os representantes do movimento não queriam conversar.

Estamos vivendo o fim do último monopólio da imprensa, o de pautar a discussão pública.

O movimento que está na rua não pertence a ninguém, não pertence a esquerda, não pertence ao Passe Livre, é muito maior.

É um movimento novo, de massa, que está em emergência, vem de baixo pra cima e que dispensa ”mídiação”. Cujo pavio, foi o aumento das passagens.

O que está em pauta é a participação das pessoas comuns, dos indivíduos e dos pequenos coletivos, na construção da democracia.

Quem quiser faturar vai ter que entender.

A onda de protestos é uma esfinge. Está aí para ser descifrada, e para devorar.

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Sobre Murilo Silva

Jornalista por acidente.
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3 respostas para Erramos, pero no mucho

  1. Pingback: A crise dos partidos está na rua |

  2. Pingback: Bob Fernandes: Eles perderam o bonde da História |

  3. Pingback: As manifestações pelo Brasil | Vinicius Mendes

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