A crise dos partidos está na rua

é mais do que o "Cansei"

é mais do que o “Cansei”

Por Murilo Silva, 

Agora que o Datafolha mostrou o óbvio, é oficial, tem fundo científico.

Segundo o instituto, 71% dos 65 mil que marcharam sobre São Paulo não tem partido.

O que está em curso é a crise derradeira dos partidos.

A Nova República (de 85 até aqui) foi marcada pela regressão política das legendas.

Uma das principais conquistas da abertura política de 80 foi o final do bipartidarismo artificial entre MDB e ARENA.

Do MDB, emergiram as legendas sociais-democratas, o partido da classe média urbana, o PMDB de Ulysses Guimarães, e de uma costela dele, o PSDB paulista, de Franco Montoro e Mário Covas.

Da ARENA, insurgiu o partido das oligarquias, o PFL, e também o PDS – partido verde oliva.

De volta a legalidade, vem as correntes do partido comunista, o PC e o PCdoB. Além do velho trabalhismo, esse dividido entre o antigo PTB, liderado por Ivete Vargas e o recém criado PDT liderado por Leonel Brizola.

Tudo isso nascido no ceio da própria classe política.

Com uma exceção: o PT, nascido do novo trabalhismo que surgiu no ABC paulistas, forjado nas greves de 70 e 80.

Já na primeira eleição direta para presidente, a política paga o preço da ausência de participação popular na formação dos partidos.

Collor é eleito presidente por uma legenda de aluguel.

É eleito em por um conchavo da elite, costurado no segundo turno para barrar o único partido nascido da sociedade, o PT.

Deu no que deu.

Hoje, 21 anos depois do impeachment, a ausência da participação popular na vida política do país volta a cobrar seu preço.

E o faz da forma mais heterogenia possível.

Tem de tudo na rua. Tem gente de esquerda; gente de direita; uma enorme massa de manobra, alienada politicamente.

Todos eles tem uma coisa em comum: eles não tinham voz até aqui.

Não tinham participação política. Estavam confinados.

Como bem disse ontem o senador Requião, na tribuna do Senado, a vaia para a presidente Dilma, no sábado, no Mané Garrincha, foi uma vaia para todos os políticos: “você aí que está aplaudindo, sinta-se vaiado.”

O que está na rua tem muito do “Cansei“, tem muito de UDN – movimento difuso contra a corrupção; o discurso da vassourinha, que já serviu tão bem nossa direita.

Mas é muito mais do que isso.

Tem muito de novo na rua também, e de esperança.

Tem gente revindicando liberdade sobre o corpo, sobre o comportamento, sobre a convívio na cidade, discutindo o papel do Estado.

Aqueles jovens despertaram de uma letargia imposta pela política de caciques.

Caciques que escolhem os candidatos entre si e impõe a sociedade o papel marginal de referendá-los. A crise de representação que essa prática desencadeou é irrefreável.

Criou um deficit democrático.

Se passarmos com sucesso por essa fase, por esse frigir dos ovos, podemos vislumbrar uma horizontalização da democracia. Quem sabe, com novos partidos ou com partidos renovados.

Com um debate político mais comunitário, mais municipalista, mas próximo das pessoas. Menos mídiado de longe.

O movimento pode parecer errático, e é. Tem quem peça o impeachment da presidenta, tem quer queira decapitar o governador de São Paulo, tudo isso é do jogo; do calor da multidão.

Mas há de se observar que, a ordem estabelecida, vigente, não tem sido menos errática do que a nova sabedoria que emerge das ruas.

O que conta no saldo final é que estamos caminhando, depois de muito tempo, estamos seguindo em frente.

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Sobre Murilo Silva

Jornalista por acidente.
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5 respostas para A crise dos partidos está na rua

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