Bob Fernandes: Eles perderam o bonde da História

O Fora de Foco, já tinha chamado atenção para o recuo histórico da imprensa com relação aos manifestantes, veja aqui e aqui.

Tinha dito também que nossa velha guarda política não está entendendo nada.

Ontem o Jornal Nacional, em editorial, sentiu a necessidade de se explicar.

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Veja que no dia 12 de junho, quarta-feira passada, um dia antes do massacre de Geraldo Alckmin em São Paulo, o JN noticiou o ataque de dez mil vândalos contra a cidade de São Paulo – fato que chocou até o século V.

Em reportagem de 5 minutos, não ouviu nenhum manifestante.

Por sugestão do colaborador Lucas Michelan, o Fora de Foco reproduz excelente texto de Bob Fernandes. Ele fala sobre aqueles velhos e velhacos que já perderam o bonde da História:

POR BOB FERNANDES

Muito em jogo nas ruas de São Paulo, e Brasil afora, logo mais à tarde. Velhos, e não falo de idade, de gerações, e velhacos – que há em todos os quadrantes, latitudes e longitudes- começam a perceber o erro brutal que cometeram.

Até que a truculência e a ignorância viessem à tona, fossem postas a nu pela repressão à manifestação em São Paulo na última quinta-feira (13), o discurso era o mesmo. Tudo aquilo, tudo isso, não era mais do que um bando de meninas e meninos mimados querendo aprontar. Em resumo, um bando de burguesinhos desocupados.

Percebem, tardiamente, que os meninos e as meninas e o “Passe Livre” são catalisadores de algo muito mais amplo, profundo, e até aqui desconhecido em toda sua dimensão. Muito mais desconhecido ainda o desfecho, no curto, médio e longo prazos.

Só perceberam porque a internet e as tais “redes sociais” enfiaram goela e consciência abaixo. Perceberam porque não há como esconder as fotos, vídeos, os depoimentos nas redes sociais. Porque ficou claro o despreparo, país afora, das PMs, guardas pretorianas dos governadores, de todos eles.

Polícia Militar, uma força bicentenária tornada auxiliar das Forças Armadas na ditadura e que permanece parada no tempo, como se em ditadura ainda vivesse o país.

A truculência, a falta de transparência, os baixos salários, tudo segue igual – e nisso a sociedade também é responsável, porque, como já se disse, cada sociedade tem a polícia que quer ter, que paga para ter.

O que mudou, em relação à polícia dos governadores, foi para pior. Para dissolver protestos trocaram os jatos d’água dos antigos “brucutus”, da época da ditadura, por gás de pimenta e as perigosas balas de borracha.

Descobriram, depois de dezenas, centenas de conflitos pelo Brasil nos últimos anos, em que estágio democrático encontram-se tais polícias. Descobriram o quão distante os governantes estão das ruas, do humor das ruas.

Descobriram, enfim, o que significa esse número alardeado e nunca entendido, o dos 80 milhões de usuários da internet no país, algo como 50 milhões no cotidiano. Detalhe este, o da força da internet, das redes, que tantas agências e tantos publicitários ainda não notaram, do ponto de vista prático, para além do discurso e do mero oportunismo.

Daí, pela percepção tardia do que se move nas ruas, a recueta nos discursos, mesmo nas coberturas midiáticas. Daí algo que certamente já preocupa os meninos e meninas do Movimento Passe Livre.

Até pela tentativa de partidarizar, de escolher alvos, de parte a parte, recuos e mea-culpa de última hora deixam antever ao menos algumas das intenções.

Uma, contraditória, é não perder um bonde, o da largada dessa história, bonde que já perderam. Um mea-culpa não apaga, não apagará fatos, e muito menos trajetórias. Outra é a óbvia intenção de tentar, nas ruas e na capacidade de reverberação mainstream, que ainda é extraordinária, tomar o controle político, dirigir as ruas para um lado ou outro. Tentar tornar o que se move nas ruas, de forma partidária, um primeiro turno de 2014.

Não é possível dizer pelo todo, agora que o todo já é tanto, mas fato é que as meninas e os meninos estão espertos e expertos. Sabem que ainda não sabem tudo, talvez nem mesmo muito do que é a Política, mas sabem quem é quem. Quem é quem e, em especial, quem foi o quê. 

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Sobre Murilo Silva

Jornalista por acidente.
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