O tempo fecha em BH. O Estado-maior da bola está mobilizado

Horizonte sombrio

Horizonte sombrio

Às dez da manhã, o governador, Antonio Anastasia, recebia informações. No Mercado Central já não há estilingues nem bolas de gude, uma das armas contra a PM e vidros e vidraças.

Por Bob Fernandes, do Terra Magazine 

Meio-dia em ponto. Daniel Nunes, microfone à mão, alerta:

– Atenção, atenção, na MG-10, via de acesso ao aeroporto de Confins, os manifestantes negociaram com a PM e aceitaram desobstruir a via e depois eles vão se sentar para negociar com o governo…

Meio-dia e dois. Novamente Daniel ao microfone:
– Senhores e senhoras, atenção, atenção ao Hotel Ouro Fino (onde está a seleção brasileira), abriram uma faixa, olhem…

Numa das telas que compõem um enorme telão, a imagem é aproximada, o foco é no grupo de manifestantes e na mensagem escrita na faixa:
– Abaixo à corrupção no Poder Judiciário.

Sala de Situação, 9º andar do Palácio Administrativo do governo de Minas. Daniel Nunes está no Comando da Central de Monitoramento na Sala de Situação. Em 160 computadores, distribuídos por oito longas bancadas, homens e mulheres em frenética atividade.

Eles e elas são do Exército, Polícia Federal, Polícias Militar, Civil e Rodoviária Federal, dos Bombeiros, Defesa Civil, Social, Trânsito, Saúde e Guarda Municipal. De terno, apenas os homens da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN).

Diante de todos, o telão com as dezenas de telas. Em cada uma delas, imagens de pontos nevrálgicos de Belo Horizonte e região nessa tarde em que Brasil e Uruguai disputam o direito de chegar à grande final no Maracanã.

São quatro bancadas à esquerda e quatro à direita. Os homens da PF estão na última fila à esquerda do telão e suas sub-telas. Os do Exército na última fila à direita. Cada grupo atento a uma específica movimentação. Por rádio e telefone, todos se comunicam com o a grupos nas ruas.

Às dez da manhã, o governador, Antonio Anastasia, recebia informações. Desde a véspera, sabia de um detalhe revelador. No Mercado Central já não há estilingues nem bolas de gude, uma das armas contra a PM e vidros e vidraças.

O que se espera, sem saber se virá e tendo negociado ao máximo para evitar, é uma batalha nas ruas de Belo Horizonte, por motivos vários tornada um laboratório das manifestações que varrem o país.

Em especial, Minas se tornou um laboratório na batalha pelo controle da informação e contra-informação. Onde se busca ganhar, ou se evita perder, a guerra, fundamental há um ano das eleições: a da repercussão das manifestações.

O quem é ou não é o “culpado”, o “responsável”, o quem se saiu “bem” e o quem ficou “mal” nas manchetes. Aécio Neves, do PSDB, é de Minas. Dilma Rousseff, do PT, é mineira.

Em ambos os lados há os que lutam para atingir a imagem do adversário. Ou, da adversária.

Os governadores se falam. Anastasia conversa com Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro, e com Geraldo Alckmin, de São Paulo.

O governador de Minas conversa, e muito, com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Mas não apenas. De Cid Gomes (PSB), governador do Ceará, recebeu significativa informação:
– Aqui em Fortaleza acabou o estoque de bombas de gás lacrimogêneo.

Na véspera dessa semifinal, Antonio Anastasia se reuniu no Palácio da Liberdade, por três horas, com dez integrantes do “Comitê Popular dos Atingidos pela Copa”, o COPAC-BH.

O COPAC é o grupo de maior visibilidade na “Assembleia Popular Horizontal”, constituída por 2 mil membros de vários movimentos que se reúnem debaixo do viaduto de Santa Tereza.

O COPAC nasceu de donos de bancas e barracas da “Feira do Mineirinho”, vitimados pela remoção por conta da Copa.

Numa reunião com momentos de tensão, o governador e dez integrantes do COPAC definiram 7 itens. Ao final, assinaram um compromisso.

Um dos itens, o 3º. Nesse, governador e manifestantes firmaram um pacto: os manifestantes, que virão pela Avenida Antonio Carlos, comprometeram-se a não tentar invadir a Abraão Caram, que desemboca no Mineirão.

E Anastasia, de próprio punho, como se vê na foto abaixo, também assumiu um compromisso. O limite para a manifestação é o mesmo, o cruzamento das duas vias, mas a PM recuaria 100 metros para não ser notada pelos manifestantes.

Explicação para esse recuo de 100 metros. “A PM é um símbolo”, como disse um integrante do COPAC.

Com cerca de 50 mil homens, a PM mineira enfrenta, também ela, seus problemas. Atacadas nas últimas manifestações, as tropas estão ariscas, querem reagir a qualquer custo.

Isso explica o teor da entrevista de seu Comandante-Geral na véspera. O Coronel Márcio Martins Sant’Ana, num gesto incomum, revelou as forças que estariam nas ruas:
– Teremos 5.566 soldados, 166 soldados da Força Nacional, mil PMS do interior e dos pelotões de choques de outras cidades.

O Coronel falava para dois públicos: um, a sociedade. Outro, as indóceis tropas da PM.

Duas horas e oito minutos da tarde. O ônibus da seleção brasileira adentra o perímetro do Mineirão. A câmera instalada dentro do ônibus, monitorada na Sala de Situação, mostra que não houve problemas no trajeto. Alívio.

Há uma semana não foi assim. Manifestantes socaram o ônibus com a delegação do México.

Duas e vinte e dois da tarde. As câmeras mostram: Jérôme Valcke, o secretário geral da FIFA, desembarca de seu jatinho no aeroporto da Pampulha.

Duas e vinte e três. A informação chega à Sala de Situação. Joseph Blatter, presidente da FIFA, “deve aterrissar em cinco minutos”.

Cerca de 15 mil manifestantes que saíram da Praça Sete, estão a caminho do Mineirão.

Duas e cinquenta e dois da tarde. Joseph Blatter, presidente da FIFa, adentra o perímetro do Mineirão.

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Sobre Murilo Silva

Jornalista por acidente.
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