Os negros do Maracanã

Céu pra avião e pro morro descaso

 

Por Bruno Pavan

A impressão que eu tenho é que o título deste post vai fazer tanto sentido pro meu filho quanto os nomes das bandas de rock nonsense da década de 80.

Quem viu o jogo de ontem, entre Brasil e Espanha e procurou, além das quatro linhas, não encontrou o negro que tanto deu cor ao Maracanã de antigamente, antes da fifatização do estádio.

Só havia gente com saúde dentária, lembrou-se Xico Sá de Nelson Rodrigues.

(Antes de continuar a ler saiba que este editor gosta de futebol, vibrou com o título de ontem e não se acha menos politizado por isso)

Nunca fui ao Maracanã e essa é uma frustração que levarei ao túmulo.

Ele não existe mais.

Mas os negros do Maracanã não estavam muito longe da festa dentro do estádio.

Estavam logo ali, do lado de fora, talvez encarando o caveirão do BOPE pela segunda vez em pouquíssimo tempo.

Eles já haviam se encontrado na Favela da Maré, semana passada.

10 morreram. Três eram moradores inocentes.

O chumbo das balas somos nós, diz aqui Eliane Brum.

Este editor assistiu o Jornal Nacional desta segunda-feira (01/07).

Os cinco primeiros minutos do telejornal de maior audiência do Brasil foram dedicados a protestos pelo Brasil.

Em SP, caminhoneiros pararam o trânsito de algumas rodovias para protestar contra o preço dos pedágios e transportadoras clandestinas.

Em Recife e Manaus, a greve dos motoristas e cobradores de ônibus foi explorada como nos tempos antigos, quando o gigante ainda adormecia.

O amor de semanas atrás voltou a ser o “não precisa atrapalhar o trânsito”.

Um grupo de pessoas invadiu a garagem de uma empresa de ônibus em Recife.

Elas não foram chamadas de “vândalos”.

Ao que parece, os protestos já cumpriram seu papel.

Voltem pra casa.

Enquanto isso os negros do Maracanã vão sendo expulsos do centro, como foram na época do império quando tiveram que construir as favelas nos morros.

O morro que na favela é verbo.

Pra eles não sobra nem o circo.

Dariam tudo pelo seu circo de volta.

Circo que será repassado para a iniciativa privada depois de ter ficado bonitão.

Não pertence mais aos donos de antigamente.

Como já dizia Simonal: “as dores ficam lá fora, o inferno fica lá fora”.

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2 respostas para Os negros do Maracanã

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