Um garoto que, como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones

Jahar era como você

Jahar era como você

Por Murilo Silva

Na verdade, ele não amava os Beatles e os Rolling Stones. Jahar, como era conhecido pelos amigos, preferia Hip Hop.

Era louco por The Walking Dead e Game of Thrones, como muitos de vocês – quase como eu – gosto só do segundo.

Jahar, 19 anos, era um garoto popular no colégio.

Era capitão do time de luta latina, no Cambridge Rindge e Escola Latina, um grande colégio preparatório de Cambridge, Massachusetts. O colégio é conhecido pela sua diversidade cultural, racial e étnica.

No dia 19 de abril de 2013, o jovem Jahar transformou-se num monstro chamado Dzhokhar Tsarnaev. 

No dia 19, duas bombas foram detonadas nas imediações da Copley Square, em Boston, no final da tradicional maratona que leva o nome da cidade.

Três pessoas morreram.

Krystle Campbell, 29, e Lingzi Lu, 23, e Martin Richard, de apenas 8 anos de idade.

Mais de 260 pessoas ficaram feridas, muitos tiveram membros amputados e/ou perderam parte da audição.

O monstro Dzhokhar Tsarnaev, foi reconhecido em uma imagem granulada, de circuito de segurança, exibida por todos os canais de TV.

Na imagens, o monstro usava uma jaqueta bordada com um nome: Jahar.

Essa semana, a consagrada revista Rolling Stone chocou os EUA e parte do mundo com a capa reproduzida acima.

A revista abre o perfil de Dzhokhar Tsarnaev e/ou Jahar, dizendo:

Nossos corações estão com as vítimas da Maratona do bombardeio de Boston, e os nossos pensamentos estão sempre com eles e suas famílias. A reportagem de capa que estamos publicando esta semana cai dentro das tradições do jornalismo e Rolling Stone […]

O fato de que Dzhokhar Tsarnaev é jovem, e na mesma faixa etária, como muitos de nossos leitores, torna ainda mais importante para nós, para examinar a complexidade desta questão e ganhar uma compreensão mais completa de como uma tragédia como essa acontece.

O que escandalizou parte do país foi o fato da revista expor a foto de um monstro na capa, como se fosse o rosto de um astro pop, que geralmente ocupa a capa da revista.

Mas seria Jahar um monstro?

Seria um terrorista um monstro?

Parafraseando minha mãe, quando se dirigia a mim na terna infância, eu diria que: monstros não existem, caro colaborador.

Atos monstruosos são essencialmente humanos. O mal está entre nós, mas sobretudo, em nós.

O holocausto foi feito por homens, como sentenciou-se em Nuremberg.

A capa da Rolling Stone mostra a bela face do mal. O que causa uma ojeriza compreensiva, principalmente na cidade de Boston, que boicotou a venda da revista.

Mas a repulsa pela imagem não afasta o fato insuportável de que: se Jahar – um jovem como eu, você – foi capaz, qualquer um pode ser capaz.

Esse é o rosto da guerra sem fim – que nós, homens – criamos.

Não é um rosto encoberto por uma mascara, e exatamente por isso, não se pode identificar na multidão.

Depois de passar quase uma noite inteira sangrando no chão de uma lancha, Dzhokhar Tsarnaev, foi capturado, um dia após o fatídico 19 de abril.

Nas paredes do barco, os agentes encontraram o que a Rolling Stone chamou de “inscrições jihadistas”:

“Jahar pareceu assumir a responsabilidade pelo atentado, embora ele tenha admitido que não gostava de matar pessoas inocentes. Mas ‘o governo dos EUA está matando nossos civis inocentes’, escreveu ele, provavelmente referindo-se aos muçulmanos no Iraque e no Afeganistão. ‘Eu não aguento ver tanta maldade impune …. Nós, muçulmanos, somos um só corpo, você fere um, você ferir a todos nós’ “

A monstruosidade de Dzhokhar Tsarnaev, está feita. Mas pertence a todos, a condição de humanidade.

É como na música, quase clichê, que inspira esse título.

Era um garoto que, como eu –  como você – cantava viva a liberdade. Mas que não canta mais, está morto no Vietnã, onde foi enviado para matar vietcongues.

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Sobre Murilo Silva

Jornalista por acidente.
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