Cabral, Amarildo e o leiteiro

esse blog se abstêm de legendar esta imagem

esse blog se abstêm de legendar esta imagem

Por Murilo Silva

Certa vez perguntaram a Winston Churchill como ele definia a palavra Democracia.

Churchill respondeu: “Democracia é aquele regime onde, quando alguém bate à porta do cidadão às cinco da manhã, esse alguém só pode ser o leiteiro.”

Churchill se referia à inspiração primeira do Estado liberal – o direito à segurança.

É o Estado que existe para ”fazer viver”, em contrapartida ao Estado totalitário, hobbesiano, que existia porque tinha o poder de “deixar, (permite), viver”.

Na democracia o cidadão não é surpreendido. O direito é garantido. A surpresa dá-se só por um segundo, entre o acordar com a campainha e o lembrar: “é o leiteiro”.

Ontem, quase às lágrimas, Cabral pediu, como pai, cidadão, que os manifestantes cariocas poupassem a rua onde ele mora da onda de protestos que se abate sobre seu governo.

Alegou que na sua vizinhança, no charmoso Leblon, moram crianças, entre elas seus filhos.

Cabral lembrou que foi senador, que foi presidente do Legislativo, que está acostumado com a Democracia que vem das ”galerias do Congresso”.

(Deboche?)

“Que isso gente, não sou um ditador”, arrematou.

Não bateram na casa do Amarildo, como é comum nas periferias brasileiras, sempre sem um mandado, sem direito.

Mas o detiveram bem perto de casa, na comunidade da Rocinha, no caminho de volta, às 20h, do dia 14 de julho.

Amarildo voltava de uma pescaria, ele portava todos os documentos.

Desde então, não foi mais visto.

Quem levou o pedreiro Amarildo?

Como você sabe, não foi o leiteiro, caro colaborador.

Ele foi levado por uma patrulha de quatro policiais da Unidade de Polícia “Pacificadora” da Rocinha.

Há duas semanas, em uma série de manifestações e vigílias diante do prédio do governador, os jovens questionam “onde está o Amarildo?”

Sérgio Cabral chegou a receber a família do pedreiro, mas para quê?

Para explicar que o trabalhador foi surpreendido em seu inalienável direito de ir e vir e que, a surpresa não era do leiteiro?

Sérgio Cabral está certo, não é mesmo um ditador.

Foi eleito, e bem eleito.

Mas, definitivamente, não governa sob um regime democrático.

Quando o Estado não repeita a prerrogativa intransferível do leiteiro de surpreender o cidadão – ainda que por um breve instante – a população se resguarda ao direito de surpreender o governante – permanentemente.

Daí, e de tantos outros exemplos, a perplexidade que assola Cabral.

Em tempo: O Rio de Janeiro acaba de somar mais uma forma estúpida de se morrer em sua vasta galeria de estúpidos motivos (veja aqui).

O estouro de uma adutora que levou uma criança hoje a tarde, dupla estupides.

Muito em breve, o Leblon será o menor dos problemas de Sérgio Cabral que, no fundo do poço, se põe a cavar.

Anúncios

Sobre Murilo Silva

Jornalista por acidente.
Esse post foi publicado em Brasil, Política e marcado , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Cabral, Amarildo e o leiteiro

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s