O machismo dos outros

Por Bruno Pavan

Sempre fui uma cara que gostou de estar nas redes sociais.

Não sou daqueles gurus que ditam regras, quem me segue nelas sabe que eu sou bem verborrágico.

As vezes erro o tom da ironia.

Faz parte.

Estou no twitter mais ou menos desde 2007/2008, não me lembro muito bem.

Mas posso dizer que aprendi e conheci muita coisa por ele.

Lá, muito mais que pelo Facebook, as disussões acontecem, são mais curtas e, quase sempre, mais rápidas.

Foi por uma série de mini-textos de 140 caracteres que conheci, por exemplo, muita coisa da luta feminista.

Hoje, esses assuntos chegam, sem sustos, na grande mídia.

Acho que os amigos colaboradores já tomaram conhecimento da pesquisa “chega de fiu-fiu” elaborada por um blog que apontou que 99% das mulheres já levaram cantadas nas ruas.

(Se você não leu, clique aqui.)

A maioria das entrevistadas (foram mais de sete mil) disseram que não gostaram de serem “cantadas” por desconhecidos.

Hoje no programa Encontro, apresentado pela Fátima Bernardes, este assunto foi abordado.

É bom constatar que o estudo saiu de blogs especialisados na discussão feminista e partiu pra grande mídia, esse vilão.

E, até a hora que este editor estava assistindo o debate, a grande maioria das mulheres disseram que não gostam de serem abordadas.

Até que um cidadão foi ouvido, com uma camisa do Botafogo, o senhor, que se disse pai solteiro, afirmou que canta mesmo todas as mulheres e se vangloriou: “metade das vezes dá certo”.

Minha intenção não é entar no quão eficientes devem ser as cantadas, já que 50% é um número considerável, mas meio fora da realidade.

O ponto é o que ele disse depois: “se não tá de mãos dadas, qual o problema? Agora, se tiver com alguém, eu respeito”.

O respeito aí, colaborador, não é a ela, mulher, que ele nem conhece e mesmo assim “tece seus elogios”.

É com o homem que está de mãos dadas com ela.

Não importa se a mulher se sentiu agredida pela sua fala, se ela estiver sozinha, dane-se.

Na noite de terça-feira, o programa A Liga debateu sobre a sexualidade da mulher.

Em uma mesa num bar, o “humorista” Rafinha Bastos conversava com alguns homens (que me lembrou aquele salgado de bar, recheado com frango) e levantavam algumas questões.

Certa altura ele questionou os presentes se eles achavam importante fazer a mulher gozar (tirem as crianças da sala).

E a resposta veio: “se eu conheci a mulher na balada e levei pros finalmentes, eu quero gozar, f… ela, pega um Halls e já era. Não sabe escolher o homem que vai dar…”

Fosse uma entrevista de emprego, o machistinha seria aprovado para o show de Stand-up de Rafinha, aquele que acha que estuprador de mulher feia merece abraço.

Em um outro momento Rafinha perguntou: “o que vocês pensam da mulher que dá no primeiro encontro?”

O som da reprovação tomou conta do recínto.

Os argumentos contrários variaram do clássico: “ah, mas mulher tem mesmo que fazer esse joguinho”, até o quase surreal “mulher assim não vai querer nada sério, contruir família…”

A questão também foi levada às ruas e a resposta de um dos entrevistados foi a velha desculpa do machista não sou eu, é o mundo! Mas se uma mulher que transar comigo no primeiro econtro, ela é puta!

Difícil é encarar o espelho e entender que você também faz parte desse mundo machista e, se você reporduz o discurso dele sem pestanejar, sinto informar, mas você é um deles.

Você tira um problema que é seu e rebate com o “todo mundo faz isso”.

E segue andando de lado e olhando pro chão.

Assista aqui o programa na íntegra

Clique aqui para ler: “O discurso nocivo e desumanizante do ‘mulher pra pegar’ ”

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Uma resposta para O machismo dos outros

  1. Olga disse:

    Que post ótimo. Feliz de ter lido palavras tão lúcidas da ala masculina. Obrigada!

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