Os Bandeirantes dos espaços gourmets

A ordem que eu não quero seguir admitindo

Por Bruno Pavan

Este blog já analisou que, na escrita da bandeira nacional, o brasileiro é muito mais ordem do que progresso.

Nesta quinta, mais um exemplo de como somos ordeiros e prezamos pelo patrimônio publico aconteceu: para revolta de muitos, o monumento às Bandeiras, na frente do Parque do Ibirapuera, amanheceu pichado.

No dia da manifestação indígena na Avenida Paulista contra a PEC 215, o “deixa que eu empurro” ganhou um tipo de legenda: “Bandeirantes assassinos”.

Bandeirantes são os típicos heróis que formam hoje o pensamento da classe média paulistana.

Eles eram “desbravadores” que “ampliaram” os limites das terras brasileiras por meio de explorações de minerais e extermínio de quilombos.

No site do Parque do Ibirapuera, a explicação é aquela, dos livros de história: “o Monumento às Bandeiras representa os bandeirantes, expondo suas diversas etnias e o esforço para desbravar o país.”

Aquela mesma história que transformou Tiradentes, que seria negro, numa cópia fiel da representação católica de Jesus.

A verdade é que os Bandeirantes foram, talvez, os primeiros vândalos tupiniquins.

Invadiam terras indígenas, exploravam minerais, matavam alguns índios, escravizavam outros para usá-los em suas fazendas próprias.

Mas, nem isso é o suficiente para protestos contra esculturas, nomes de praças, de ruas e de rodovias no Estado que levam nomes e figuras Bandeirantes por aí.

As figuras são tão simpáticas que virou até nome de emissora, que agora, em tempos de século XXI, é só Band.

Parece que quando o vandalismo vem de cima, ele é prontamente justificado: “tínhamos que tirar aqueles índios preguiçosos dali.”

A única hora em que o paulistano deseja o progresso é quando quer transformar casarões e construções históricas em “espaços gourmet” rodeados por uma sala, um banheiro e um quarto.

Espaços Gourmet são os novos minerais que os heróis Bandeirantes exploravam.

E tirem os sabiás de perto, eles não deixam o Paulistano dormir.

Aí, dane-se a história! Não podemos olhar pra trás, não é mesmo? A cidade não pode parar de crescer.

Progresso no século XXI está limitado à especulação imobiliária.

Vivemos nos nossos apartamentos e não olhamos mais pra frente, pra baixo ou pra dentro.

Nossa mini revolta só é alimentada quando quem querem que acreditamos serem os vândalos aparecem encapuzados e mascarados na TV.

Quando alguém trata de nos tirar da zona de conforto, quando alguém ousa nos tirar da poltrona num dia de domingo.

Aí nós repetimos o que nos foi ensinado por uma sociedade que valoriza os Bandeirantes em quase todas as esquinas.

E viva Borba Gato!

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