Aumento no IPTU: entre patrícios e plebeus

Por Murilo Silva

Contrariando todas as normas básicas de higiene e profilaxia, esse blogueiro entrou hoje na página do Reinaldo Azevedo, no site de Veja.

Leia aqui, se tiver coragem.

Reinaldo Azevedo compara o mapa eleitoral da capital paulista com um mapa que mostra a distribuição do aumento do IPTU em São Paulo – que em larga medida, é o mapa da redução do IPTU.

Ele chega a uma brilhante conclusão: O IPTU é a vingança de Haddad contra os eleitores que se atreveram a não referendá-lo na eleição.

Veja os mapas, pela ordem, I e II:

azevedo

Seria engraçado, se não fosse trágico.

Há uma onda fratricida em São Paulo, que parte dos patrícios contra os plebeus, relegados historicamente ao outro lado da ponte.

Acontece que os plebeus – que como na época do império, compõe a maioria da população – hoje em dia, tem direito a voto.

Nada mais natural; necessário e correto, portanto, que um governo eleito pelos mais pobres governe olhando para eles.

Numa cidade como São Paulo, onde os espaços são escassos, é preciso escolher. E é ai que está o problema.

A extensão da cidadania plena à plebe incomoda.

Incomoda que o ônibus ande ligeiro pelo corredor da 23 de Maio enquanto os CRVs dos patrícios ficam parados na Avenida.

Incomoda que eles estejam nos restaurantes; nos bancos; nos shoppings; no aeroporto; atravancando uma praça que não era pra eles.

A medida que se supera o apartheid social – veja aqui os números – a disputa pelo poder entre as classes se acirra.

Uma dessas disputas é justamente a questão tributária, que ainda é timidamente discutida sobre o prisma social.

Ocorre que, no Brasil, tributa-se fortemente a produção e o consumo, e tributa-se pouco a renda.

O imposto sobre a renda é baixo e desigual. A alíquota máxima sobre a renda no Brasil é de 27.5%.

Aí fica assim: o mecânico de manutenção que saí todo o dia de Guaianazes para trabalhar na região da Raposo Tavares (extremos leste e oeste de SP), e que, com a hora extra, ganha 3.272 reais por mês, vai pagar até 22,5% de imposto sobre a sua renda ao ano.

Embora no cálculo do IR ele possa vir a pagar menos, com desonerações, fontes isentas de renda, e a forma como é feita a conta, levando em consideração diferentes faixas de renda até se chegar ao teto. Mas, fato é que essa é a alíquota que incide sobre sua faixa de renda, 22,5%, conforme a tabela do IR, veja:

tabela IR

O megainvestidor, que mora numa cobertura em Higienópolis e que, do conforto de sua casa, aplica seu dinheiro no mercado – sem trabalhar e sem gerar empregos – e que obtém com isso renda de 1 bilhão por ano, paga ao Estado o teto de 27,5% sobre a sua renda.

Apenas 5%, essa é a diferença entre o bilhão e o tostão, caro colaborador.

Dedução por dedução, o bilionário consegue deduzir muito mais que o mecânico, quando não sonega – coisa que é muito mais difícil para o trabalhador que paga o imposto na fonte.

Se comparado o imposto do bilionário com o do advogado; dentista; professor universitário, enfim, com a classe média, o imposto deles é exatamente o mesmo – o teto de 27,5%.

Em países civilizados, como a Alemanha, o imposto sobre o consumo é quase zero, o que permite as pessoas viverem com dignidade; o imposto sobre a produção é baixo, o que garante os empregos; e o imposto sobre a renda é alto – e por isso pode ser melhor distribuído – chegando a até 50% da renda dos mais ricos.

Não existirá uma justiça social de fato no Brasil sem se discutir a questão tributária.

É preciso lembrar que as tão citadas ”vozes das ruas” pediram mais Estado: mais saúde, mais educação; mais transporte.

Não se financia nada disso sem impostos.

Na França, por exemplo, se adotou a tributação de grandes fortunas, um modelo que precisa ser discutido no Brasil.

Uma reforma tributária consiste em escolher. A nova distribuição do IPTU foi uma escolha, ao escolher os pobres, o prefeito escolheu muito bem.

Nesse debate, a Reinaldo Azevedo e seus pares cabe clamar: ”compatrícios, uni-vos!”

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Sobre Murilo Silva

Jornalista por acidente.
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6 respostas para Aumento no IPTU: entre patrícios e plebeus

  1. thiago disse:

    (o cálculo correto do IRRF do mecânico resulta dá +-11,5%)

    • Murilo Silva disse:

      Caro Thiago- havia usado a base de 2012, corrigi o valor mínimo. Eu levo em conta a alíquota – já que a forma do calculo progressivo pode mudar. Obrigado pela sua atenção e continue conosco.

  2. chicoscarpini disse:

    O ônibus anda rápido onde cara pálida? Prefeitura ajudando os pobres? De qual cidade vc esta falando?

  3. Cleber disse:

    Legal seu post. Mas para dar mais credibilidade, corrija a parte da incidência do imposto de renda. No caso do trabalhador, a alíquota efetiva dele seria de 6,35%, já que boa parte do rendimento dele é isento de imposto (consulte em http://www.receita.fazenda.gov.br/aplicacoes/atrjo/simulador/simirpfmensal.htm). Já o imposto de renda do bilionário deve variar bastante, dependendo do tipo de operações que ele faz. Mas nunca será acima de 27,5% (que é o grande problema).

    De qualquer forma, a mensagem de seu post é extremamente válida. Redistribuição por meio de impostos e serviços (no longo prazo. já que no curto prazo são necessárias políticas de distribuição direta)

    • Murilo Silva disse:

      Caro Cleber – havia usado a base de 2012, corrigi o valor mínimo, e levo em conta a alíquota, já que a forma do calculo progressivo pode mudar. Obrigado pela sua atenção e continue conosco.

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