Dilma: a mão que afaga é a mesma que tuíta

Por Bruno Pavan

A violência de gênero sempre foi vista no Brasil como “menos violência”.

A célebre frase de Paulo Maluf: “se você está com vontades sexuais, estupra, mas não mata” é ilustrativa. Na frase, o estupro não é bem uma “violência”, é algo que você faz quando está com “vontade sexual”. Só!

A culpabilização da vítima também é algo recorrente e mostra como vemos esse tipo de violência: a mulher quase sempre foi estuprada por que “anda por ruas erradas” e, mais recorrente, “usa roupas curtas e provocativas demais”.

As agressões domésticas são vistas como “briga de marido e mulher”.

Chamamos de “crime passional” o que deveríamos chamar de “Feminicídio”.

Mas o que antes era pauta exclusivamente das “feminazis” hoje em dia entra com força na grande mídia que é, vamos ser sinceros, onde as coisas acontecem de verdade.

O que antes era assunto de guetos, hoje entra na sala de estar da dona de casa e a sua filha adolescente já está cada vez mais sensível a esse discurso.

O sonho do Dr. Paulo (como é chamado carinhosamente) se tornou realidade em 2012: o número de estupros no Brasil superou o de homicídios dolosos.

De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o país registrou 50.617 casos de estupro em 2012, 26,1 a cada 100 mil habitantes. O número de homicídios dolosos (com intensão de matar) foi de 47.136.

Este pode ser um post da série “O próximo passo” que este blog está tecendo nesses 8 meses de existência.

O alto número de estupros leva a outro problema que mais cedo ou mais tarde terá que romper a barreira do moralismo: o debate do aborto.

De acordo com o Ministério da Saúde, existem somente 65 centros para aborto legal no país.

O estado de São Paulo tem 5 centros. O Rio de Janeiro, segundo estado em que mais mulheres são violentadas possui 1, enquanto que em Roraima, estado que possui o dobro de estupros para cada 100 mil habitantes do que a média nacional (52,2), a mulher que quiser abortar terá que viajar para outro estado.

A presidenta Dilma mostrou toda a sua indignação no Twitter. Chamou os números de alarmantes e anunciou o lançamento de unidades da “Casa da Mulher”, como parte do plano contra a violência de gênero.

O que alguém precisa avisar a presidenta é que a algumas quadras de onde ela tuítou, na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara, foi aprovada a PL do Nascituro que, se virar lei, vai permitir ao estuprador que a criança fruto da violência receba seu sobrenome.

Atualmente o que separa de verdade um projeto progressista de um conservador no Brasil são os direitos humanos. Violência de gênero e homofobia entram nessa questão como nunca antes na história desse país.

E nesse aspecto, vale o dito popular, se não faz parte da solução, então faz parte do problema.

Não existe espaço para um discurso progressista (nos costumes) dando a mão cheia de aneis para a bancada igrejeira do Congresso Nacional.

E são os aneis desta mão que, mais cedo ou mais tarde, terão que ser entregues se alguém quiser fazer deslanchar um verdadeiro projeto de esquerda no país.

Clique aqui para ler: na cultura do estupro o “não” significa talvez.

E aqui para ler que é essa cultura que ensina a mulher não ser estuprada e não o homem a não estuprar.

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