A reinvenção que vem do morro

O passinho

O passinho

Do colaborador Alisson Matos exclusivo para o Fora de Foco

Esqueça o esteriótipo de favelas cariocas retratado em filmes de grande apelo nacional. Aqui não se verá  a cruel divisão simplória entre bandido e autoridade, aquela em que  os atores envolvidos, em certas ocasiões, mudam de posição e abrem margem para a tão peculiar situação: quem deveria proteger torna-se uma ameaça real. 

Longe disso.

Assisti, com certo atraso, o excelente filme “A batalha do passinho” , de Emilio Domingo – clique aqui para ver o trailer. E, da manifestação cultural que tem um poder de reinvenção que a diferencia das demais, saem modelos de democratização e de convivência incomuns  no outro lado do muro imaginário que separa o morro do asfalto.

Um jeito de fazer uma cultura nossa“, diz um dos personagens do longa de 75 minutos. Mas uma maneira que agrega e une, em detrimento à exclusão e marginalização conhecidas por muitos ali. Não que seja motivo para torná-los frágeis. Pelo contrário, fez surgir a conclusão mais completa e exata do que é uma comunidade urbana.

Os “moleques de mola“, nas palavras de Carlos Alberto Mattos, estreitam a distância entre forró, funk, punk e pop. Pés no chão, tênis no pé, sem camisa ou com roupas de grife, a identidade é moldada a partir dali e de forma única. 

Não importa, da perspectiva estética, que seus gêneros de base sejam nacionais ou estrangeiros (afinal, todo nacional, e o Brasil mais evidentemente que todos, é na origem uma mistura) (…). Importa que o resultado não se confunda com nada que havia antes. E essa é uma definição de arte“, escreveu o ensaísta Francisco Bosco, em O Globo. 

Surgido por volta de 2001, o passinho proporciona inclusão. São crianças, adolescentes, meninas, meninos, negros e brancos símbolos de uma comunhão ímpar que fazem valer o significado de espaço público. Muitos veem oportunidades para se autodivulgarem em vídeos ou redes sociais e explicitam a junção de diferentes estilos de dança. 

As disputas ou duelos entre os artistas ocorrem para, talvez, transformar tudo aquilo em metáforas da vida, em que as vitórias e derrotas farão sempre parte, mesmo que não determinantes para objetivos que devem ser buscados. 

São becos e bailes que pulsam, além de uma gente que inova o tempo inteiro, desde a hora que acorda até o último hit tocado na noite. Não é à toa que os olhos se viram cada vez mais às comunidades. Se, de fato, almejamos uma sociedade igualitária, o  futuro passa por lá.

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Sobre Murilo Silva

Jornalista por acidente.
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