Mandela faz lembrar, por que estamos tão longe da África?

ainda longe da Àfrica

ainda longe da África

Por Murilo Silva, 

Ontem, quinta-feira, dia (05), o mundo perdeu um dos símbolos mais expressivos da luta pela liberdade que o século XX, o mais terrível da História, foi capaz de produzir.

Mandela merece todas as homenagens que recebeu de ontem pra hoje, e sobretudo, merece reverência perpétua à sua memória – que a História há de lhe dar.

Mas esse texto não quer tratar disso.

Vamos sair um pouco do Foco.

Acompanhei a cobertura da morte de Mandela ontem e hoje na TV.

Me incomodou profundamente a ausência da pele negra.

Hoje, recebi de uma amiga do Rio, um texto de uma moça francesa que, no Brasil, acompanhou a mesma cobertura que eu:

“Ontem à noite estive vendo a TV, a Globo News, TV Cultura e etc…

Então descobri que o Brasil não tem nem um negro ou mestiço intelectual, politico ou artista, capaz de expressar alguma coisa de jeito sobre o líder da luta pela igualdade.

Pois só vi intelectuais e jornalistas brancos entrevistados.

Essas pessoas falavam da discriminação na África do Sul e nos USA com se essa discriminação não tivesse nada a ver com o Brasil.

É extraordinário!!!”

Tão extraordinário que fui buscar algumas coisa. Nelson Mandela fez apenas duas visitas oficiais ao Brasil, FHC retribuiu com uma visita de Estado à África do Sul.

Depois Lula esteve lá algumas vezes, tentando incrementar a política sul-sul que marcou as relações exteriores do seu governo.

Mas é pouco, muito pouco para o mais importante país da África e para o maior país negro fora da África.

É pouco para dois continentes que compartilham a defesa e o comércio do Atlântico Sul.

No comércio, a coisa melhorou muito nos últimos dez anos, mas a participação da África nas exportações brasileira ainda é baixo, coisa de 5%.

A cooperação em política ainda engatinha.

Em grande parte, essa distância se acentua porque o Brasil é incapaz de se integra sequer à África que existe dentro de si.

Quando nós nos apresentamos, protocolarmente, ao mundo, apresentamos sempre a nossa fina herança européia.

Nos apresentamos como Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert.

Nossa herança negra ainda é apresentada como um adorno cultural exótico, para encantar o mundo branco do Norte.

Para não perder o nosso charme tropical, fazemos com que o casal ariano apresente o Olodum, o samba e as mulatas.

Nossa cara, no mundo e na África, é branca.

O Itamaraty não sabe informar quantos negros tem nos seus quadros. Mas até 2010, o Ministério de Relações Exteriores do Brasil não tinha um único diplomata de carreira negro.

Aliás, desde a proclamação da República até 2010, só houve Raimundo Souza Dantas e Mônica de Veyrac.

Em 2002, o Instituto Rio Branco, responsável pela formação diplomática brasileira, aderiu ao sistema de cotas raciais.

Mas em 10 anos, de 2002 à 2012, dos 741 brasileiros que ingressaram no Rio Branco, apenas 19 eram negros.

O mesmo acontece nas Forças Armadas.

Não temos negros em altas patentes para, em cooperação com a África, defender o Atlântico Sul, nossa mais vasta e vulnerável fronteira – onde estão nossas tão festejadas reservas de petróleo.

O professor Luiz Felipe de Alencastro – professor de História do Brasil na Sorbonne –  em artigo para Folha, no anos passado, (“As armas e as cotas“) destacou essa branquidão da diplomacia e da Defesa como uma fragilidade estratégica do Brasil.

A face branca do Estado nos isola com relação aos nossos vizinhos e paceiros do Sul.

Nos coloca longe da África, longe de Mandela, e o mais grave, longe de nós mesmos.

***

Em tempo: Os EUA, que não são bobos nem nada, não desprezam o componente étnico do ponto de vista estratégico.

Um dos poucos alto oficias negros das Forças Armadas americanas é o contra-almirante Sinclair Harris, comandante da 4ª Frota americana, destacamento voltado para o Atlântico Sul.

Harris é o cara que navega a maior máquina de guerra do hemisfério sul, bem em cima do nosso pré-sal, e é mais africano que os nossos generais…

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Sobre Murilo Silva

Jornalista por acidente.
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