Independência às avessas

Capa do caderno de esportes do Diário de S.Paulo

Por Bruno Pavan

“Grande pátria desimportante, em nenhum instante eu vou te trair”, cantou Cazuza no final da década de 80, quando recém saído da ditadura militar, o Brasil procurava uma cara própria.

Cazuza infelizmente caiu na vala comum das letras de protesto que hoje são mais usadas para embasar qualquer meme de Facebook. Por menor sentido que faça.

Mas ele foi maior que isso. Foi o autor que melhor entendeu a formação de uma burguesia que foi se tornar realidade com o passar dos anos.

Uma burguesia colonizada que “quer ir a Nova Iorque fazer compras” mas que “não repara na dor da vendedora de chicletes”.

Neste final de semana, cenas de pura barbárie entraram na casa dos brasileiros em pleno horário nobre, a tarde de domingo.

Quem estava na santa paz, sentado em sua poltrona, teve que se incomodar com as imagens da briga generalizada entre torcedores de Atlético Paranaense e Vasco.

Horas mais tarde, naquele mesmo domingo, começaram a aparecer o que, pra muitos desses espectadores, é o pior que pode acontecer: a imprensa estrangeira começou a repercutir o assunto e, obviamente, mostrando a barbárie em um estádio de um país que vai sediar a Copa.

Não foi a falta da Polícia Militar dentro do estádio, não foram as agressões a luz do dia, não foi a provável impunidade  de que serão passíveis os envolvidos. O grande problema foi a repercussão na mídia internacional.

Os inúmeros problemas que temos que resolver por aqui viram um simples: olha só, isso mancha a nossa imagem lá fora. Viram um olhar torto de um europeu esnobe quando, quase que por obrigação, esse cidadão tem de dizer de onde veio.

Um medo de que fique como bárbaro da história porque não cai nada bem ser um novo rico para os estrangeiros, já que ele tanto esnoba os novos ricos daqui.

A violência na periferia, o espancamento de homossexuais, os problemas do transporte público, nada disso importa, já que a “imprensa internacional” não repercute.

Com tantos problemas nossos por aqui, é preciso que jornais que ficam a milhares de quilômetros de Brasília apontem nossos problemas para que essa parcela de brasileiros por acaso se indigne.

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