Entrou pelo seu rádio, tomou, cê nem viu


“Ficar de frente para o mar de costas pro Brasil/ Não vai fazer desse lugar um bom país”

Por Bruno Pavan

Não é incomum ouvir os saudosos, presos em uma roupa que não serve mais pra ninguém, se queixarem da produção cultural brasileira.

Fora as já surradas “não se faz mais música como antigamente” e “música hoje é só pra mulher mexer a bunda” existe também o famoso “não se faz mais música de protesto como nos anos 70 e 80”.

Os anos de ditadura militar foram frutíferos para a música de protesto tupiniquim. Teve desde Chico com “A Banda” até o rock de brasília berrando contra a “Geração Coca Cola”, procurando uma identidade própria pós ditadura.

Acontece que o tempo foi passando,Cazuza, Renato Russo e Raul Seixas se foram, os caras-pintadas derrubaram um presidente e os jovens, não mais tão jovens, não conseguiam saber pra que lado iam. Não havia mais o grande inimigo que a opinião pública havia escolhido para bater.

Não, amigo colaborador, as canções de protesto não deixaram de existir, muito pelo contrário. É você quem está olhando pro lado errado, pra cima, eu diria, quando deveria olhar “para baixo”.

É na periferia onde mora a nova música de protesto brasileira. Uma das bandas de rock mais bem sucedida dos últimos 20 anos foi o Charlie Brown Jr. Com seus integrantes vindos de locais pobres de São Paulo e de Santos, cantaram a luta de classes sem deixar o amor de lado:

“Como chegar nela eu nem sei/ Ela é tão inteligente e eu aqui pixando muro”, se lamentava Chorão:

Em 1997 “sobrevivendo no inferno” dos Racionais MCs, dividiu a opinião pública. O protesto era contra o descaso da sociedade com a periferia, vindo sem escalas, do Capão Redondo para o horário nobre.

“Permaneço vivo, prossigo a mística: 27 anos contrariando a estatística”

Outro exemplo de banda que chegou pra “explorar a sua vergonha” foi o Planet Hemp. Já no meio da década de 90, cantou contra a hipocrisia da proibição da maconha, chegando a serem presos por apologia:

No nordeste acontecia o que talvez tenha sido o mais importante movimento cultural em muito tempo: o manguebeat. Uma mistura da percurssão pesada do maracatu com hip-hop e rock.

Para os saudosos, Chico Science avisava que “modernizar o passado é uma evolução musical”

Ainda falando em luta de classes, o funk carioca, por muito tempo posto na marginalidade, expunha a hipocrisia e o preconceito com “é som de preto, de favelado, mas quando toca ninguém fica parado”.

Pra você que sente saudades, nada de errado com isso. Mas a cultura e o protesto Brasil não deixaram de acontecer. O oprimido não precisa mais que ninguém fale por ele já que a caneta, o papel e as ideias custam muito pouco.

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