Os haitianos e os tomates de R$ 14

Por Bruno Pavan

A rede de Supermercado St. Marche é um case de sucesso por  todo o estado de São Paulo.

Exemplo desses empresários que “arriscam tudo” em prol de um “Brasil empreendedor que dá certo e não fica na sombra do governo paternalista-populista etc etc etc”.

Nesse perfil da Exame com os donos da rede, é citado que eles aproveitaram bem “a década da sofisticação” em que as pessoas querem beber cervejas de R$ 15, comprar tomates de R$ 14 e azeites de R$ 150.

(Este blogueiro aposta que esses empresários devem estar descontentes com o PT no governo)

Nada de mal, caro colaborador. Se alguém tem a coragem de gastar esses tudos de dinheiro para levar um padrão de vida gourmet, que faça bom proveito.

(Prevejo que em questão de uma década teremos o PGB – Partido Gourmet Brasileiro, que irá para a TV bradar o absurdo que é o imposto em cima de uma cerveja de trigo alemã.)

A liberdade de fazer o que quizer com seu dinheiro acaba, porém, quando o direito do outro está em risco.

No início desta semana, o jornal O Globo publicou uma matéria assustadora, mas que mostra de fato como é a maior parte da nossa elite sem o verniz gourmet.

A repórter foi à igreja Nossa Senhora da Paz, no centro da capital paulista, que recebe centenas de imigrantes haitianos e africanos no estado.

Mais de 1300 empresas e pessoas vão até o local atrás de mão de obra barata.

O processo de seleção assusta, quando os imigrantes ainda estavam no Acre, um dos recrutadores confessou que escolhia os trabalhadores pela grossura da canela, como na época da escravidão.

Na igreja, uma assistente social dava um cursinho anti-preconceito.

Aposto que não precisaria dar um curso de sommelier de cerveja artesanal.

Prioridades são prioridades.

“Eles são diferentes da gente. Vão trabalhar felizes, cantando, enquanto os brasileiros relacionam o trabalho à tortura. Já ouvi empresários dizerem que a produção aumentou de 15% a 35% depois da contratação dos haitianos. Os caras são muito bons e aceitam trabalhos abaixo de sua qualificação porque precisam pagar dívida e mandar dinheiro para a família”, explicou a assistente social Ana Paula Caffeu ao Globo.

A sofisticada elite gosta mais de serviços exclusivos, ou de mão de obra barata?

Sem temer se esconder por detrás do anonimato, a empresária Ana Paula Aguiar afirmou a reportegem do Globo que “o brasileiro é preguiçoso e se esconde atrás da lei para não trabalhar”.

Ela buscava um caseiro para sua casa no litoral norte paulista, não pretendia registrar o empregado nem pagar mais de R$ 850 por mês.

Esse fenômeno é bem curioso: os endinheirados se acham os filantropos porque, bem ou mal, geram emprego para os imigrantes.

Esse espaço já recomendou o filme “Quanto vale ou é por quilo?”, de Sérgio Bianchi.

O partido Gourmet Brasileiro não gosta do estado se metendo na vida das pessoas e das empresas.

Pra que Bolsa Família, Pro Uni e costas nas universidades patrocinadas pelo governo? Esse governo que pune os “homens bons” com direito trabalhista pra empregada doméstica. Deixemos tudo na mão da iniciativa privada, esse antro de gestores geniais que conseguem “fazer mais com menos” por conta da “meritocracia” ou de outros clichês por aí.

Em tempo: a consequência dos sub-empregos oferecidos aos haitianos, obviamente não demorou a aparecer

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