São sempre 6:27 em Roma

Por Bruno Pavan

Havia tempo que eu não ia pra rua Augusta. Um crime quase que imperdoável pra um paulistano.

A rua Augusta é uma experiência, não só uma rua.

Ela é um resumo da cidade de São Paulo em seus poucos quilômetros.

Uma coisa que todo o paulistano ou quem visita a cidade deve fazer é ir pra Augusta num sábado a noite.

Haverão milhares de tentações, nem todas elas a ver com a da carne. Baladas com filas enormes, milhões de promessas de diversão fácil.

Escape delas. A experiência da Augusta prevê que você não se comprometa com elas.

Pode ser tentadora a proposta de R$ 60 consome R$ 40, R$ 100 open bar. Mas fuja dos pragmatismos. Ponha o pé na rua.

Em um sábado a noite, faça uma experiência: chegue na Augusta por volta das 23 horas e comece a perambular.

Esqueça a parte dos jardins, não há nada a se fazer ali. É o único conselho pragmático que eu lhe dou.

Navegue a partir da esquina com a Paulista e desça até a Consolação.

No primeiro bar, que está prestes a fechar prcocemente, você pode ver o senhor professor da USP com muita história pra contar.

Outra regra é não perder mais de 20 minutos em algum bar se ainda não forem duas da manhã.

Descendo mais, e pra descer todo o santo ajuda, você pode parar em outro e flagrar a conversa dos calouros animadíssimos e comemorando por terem sido aprovados pela promessa de um futuro.

Ah, se você, paulistano, ainda estiver a inocente sensação de que não tem sotaque, ela vai por terra nos primeiros minutos de sua incursão na Augusta.

Você irá detectar pessoas falando alto com a voz anasalada e agitando as mãos: elas são você.

Mas não se abale e não pare de descer, os bares já vão estar querendo fechar a essa altura do campeonato, levando por terra também a sensação de que a cidade nunca dorme.
Mas há sempre alguma resistência e os boêmios não ficam na mão. Por que a gente é assim?, perguntou Cazuza, o Agenor.

O bar lá embaixo já recolheu as cadeiras da rua, mas ainda está cheio de gente lá dentro. A TV está ligada na luta, ótimo pretexto.

Encoste no balcão e veja a o canal ser trocado, o dono não quer dar abrigo aos desbravadores.

Vozes contrárias se levantam, bradam, apelam para o controle remoto.

O gerente finalmente se rende e volta pra luta, para os aplausos e comemorações das mesas.

A democracia venceu!!!

Mas ainda é cedo para se deixar seduzir, amigo, não pare de andar.

O melhor, acredite, está por vir.

Já são mais de duas horas e há filas em alguns lugares, formadas por pessoas que não se conformam por não estarem debaixo de um teto.

Mas a rua, ah a rua, atinge seu ápice de beleza.

Grande parte dos que estão ali foram ali pra isso, ocupar o espaço público, como anda na moda dizer.

“Quem quiser que fique aqui, entrar pra história é com vocês”, alerta o tocador de guitarra com seu notebook e amplificador.

Mentindo sozinho ele entretém aqueles que também tem medo de morrer dependurado numa cruz.

O final do tour está chegando, você já pode ver o convidativo “Focaccia D`Ítália“, com direito a todos os clichês maravilhosos como a Torre de Piza formando o “I“.

O cheiro de tomate que sai dali é o mesmo que sai de centenas de pizzarias delivery pelas periferias.

(Se são Paulo tem um cheiro é o cheiro de molho de tomate.)

Dentro da lanchonete há uma promessa de que ela ainda vai cumprir seu ideal: um relógio de parede (parado às 6:27) com o horário de Roma.

Esta será a nossa última parada já que ela estampa no seu letreiro que nos acompanha até as cinco da manhã e, além do Focaccias generosas por R$ 6,50, tem a TV ligada na luta.

O atrito entre clubes também encontra seu espaço na Augusta quando surge o primeiro “Vai Corinthians!!!”, o que é respondido por alguns outros “vai Corinthians”, xingamentos e incentivos a outros times.

Há também o ansioso que, sabendo que a luta já havia acontecido, saca o celular e procura o resultado final.

“Ele ganha por pontos”, conta o inconveniente.

Ganhar por pontos é o que você faz com a Augusta.

Ela sobe, desce, te faz andar pelo canto da rua, desviar de pessoas…

Mas porque você insiste em mim?, parece perguntar com falsa modéstia.

Deixe de conversa mole, senta aqui e vamos esperar o metrô abrir…

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