O V da vida

Por Bruno Pavan

Pi, pi, pi, pi, pi (20x)

A bicicleta ergométrica é que ditará meu rumo nos próximos 20 minutos.

Faz parte da equação dos quatro quilos que eu preciso perder até o fim do mês.

Nhein, nhein, nhein… é o barulho dela.

Deve estar precisando de óleo, sei lá…

Na minha frente um pôster do Corinthians Campeão Mundial de 2012.

Por mais que eu acelere, eu não consigo sair de 2012.

Ao lado um painel engraçadinho-motivacional. Mostra a perspectivas da vida de acordo com alguns copos de cerveja.

O materialista tem três copos cheios. O pessimista vê o copo meio vazio. O otimista, meio cheio. E o perfeccionista bebe os três.

As coisas jogadas sob a mesa mostra que eu preciso dar um jeito nisso, naquilo… em tudo que está aí…

A Vida que ninguém vê, de Eliane Brum, é o livro que me acompanha enquanto a bicicleta faz essa barulho insuportável.

No fim ela fala da melhor profissão do mundo: ser repórter, contar histórias.

Ela aconselha a cheirar bem os heróis para, então, promove-los a humanos.

“O Zé é Ulisses. O Ulisses é Zé. Toda a cida é uma Odisséia”

Difícil falar da vida que ninguém vê.

Porque a vida está em todo o lugar.

A vida não está em lugar nenhum.

Escondida atrás de biombos quase intransponíveis.

Na rede social, no desejo do roqueiro neo-reaça que quer (ou queria) viver 10 anos a mil, num silêncio, numa verborragia, na cachaça com torresmo ou na quiche de brócolis com suco de maracujá.

Eu sou o que quero que as pessoas achem que eu sou?

Num olhar pra alguém, no café preto ao invés do pingado, no Gil ao invés do Caetano.

Eu estou sempre escolhendo qual a impressão que eu quero deixar.

Eliane conta as histórias das vidas invisíveis que existem em todas as cidades.

O que me deixou curioso, contudo, foi a dedicatória carinhosa que ela deixou ao Augusto Nunes no final do livro.

Como será a vida que ninguém vê do Augusto Nunes?

Será que ele sempre foi isso que ele é hoje? Será que algo aconteceu? O que aconteceu?

Enquanto isso percebo a bagunça que está aqui, revista jogada, xícaras vazias, papeis jogados nos cantos.

E antes de pensar em mais e mais e mais a bicicleta apita: pi pi pi pi, pi pi pi pi, pi pi pi pi, pi pi pi pi, pi.

Contrariando a física de uma bicicleta que não sai do lugar, eu saí do meu. Eu sempre saio. Nem sempre volto. Não sei se é bom ou é pior.

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