O Dom Quixote dos poetas

Por Bruno Pavan
Qualquer canalha incentivado (a) pode juntar palavras e escrever uma crônica.

Na poesia não é diferente. Não é difícil se inspirar e escrever coisas bonitas.

Digo coisas bonitas, mas que também podem ser inspiradas por grandes tragédias. Shakespeare está aí pra definitivamente não me deixar mentir.

Há uma força estanha que separa os grandes juntadores de palavras dos medíocres.

Talvez a certeza de falar de algo, a objetividade que nos faz tirar todas as outras palavras desnecessárias e ter a confiança de escolher as corretas.

O Brasil tem centenas de grandes poetas, cronistas e contadores de histórias.

Mas só um anti-poeta: Jorge Ben.

Contemporâneo de artistas que tinham o dom das palavras certas, Ben é o contrário disso.

Com frases extremamente longas e com palavras complicadas ele tinha tudo para dar errado.

Fácil é fazer sucesso com “O amor da gente é como um grão/ uma semente de ilusão/ tem que morrer pra germinar” ou “apesar de você/ amanhã há de ser/ outro dia”, isso são coisas que as pessoas sentem facilmente.

Não digo que traduzir isso de forma tão sucinta seja menos brilhante, mas sem dúvida o trabalho do nosso anti-heroi das palavras vai além.

Pra falar de amor, Ben não se importa com eufemismos nem com a métrica. “Minha teimosia é uma arma/ Pra ter conquistar/ eu vou vencer pelo cansaço até/ você gostar de mim/ mulher”.

Sem os olhos verdes que parecem azuis de Chico ou o charme andrógeno de Gil e Caetano, Ben é só mais um batalhador que sabe que tem que conquistar a moça pelo cansaço.

Ao invés do delicado e devastador “Seus olhos castanhos me metem mais medo que um dia de sol”, Ben prefere não deixar resquícios de dúvida no ar com “não sei não/ assim você acaba me conquistando/ não sei não/ assim eu acabo me entregando”. E assim a Ive Brussel se tornou a anti-Lígia e o avesso da garota de Ipanema.

Um autêntico letra C, como resume tão brilhantemente a página Testes de Macho.

Para falar do Rio de Janeiro, Gil apela pra simplicidade e canta de óbvio: de que ele continua lindo. Ben, entre outras odes disfarçadas à cidade, narra as desventuras de Charles, o anjo 45, que um dia marcou bobeira e foi tirar férias numa colônia penal.

Mas nenhum cantor traduziu em verso o futebol como fez Ben.

Este blogueiro confessa que se arrepia quando escuta os primeiros acordes de Umbabaraúma.

“Joga bola, jogador”.

Mas o ponto alto de Ben é quando ele fala de Flamengo. Acredito que foi o primeiro a alçar um jogador ruim a status de ídolo, coisa que a magnética faz tão bem ainda hoje.

“Fio Maravilha, nós gostamos de você”, mesmo que você tenha processado Ben por conta da biografia musicada e não-autorizada (Alô STF!!!!)

Zico também merece algumas palavras do nosso anti-poeta. Transformou Fio no clímax máximo do futebol e da humildade, porque não entrou com bola e tudo, e humanizou o maior ídolo rubro-negro.

Na música que fez ao camisa 10 da Gávea, conta que Zico “pode não ser o jogador perfeito/ mas a sua malícia o faz com que ele seja lembrado/ pois mesmo quando não está inspirado/ ele procura a inspiração”.

Ele pode estufar a rede num “possível” (vejam bem, possível) gol de placa enquanto seus chutes maliciosos são como flashs eletrizantes. Ah, e não se esqueça também que “ele tem uma dinâmica física, rica e rítmica”.

Ben é gênio da raça porque ensina que a poesia, as rimas ou até mesmo a palavra, podem depender da própria música e não da letra.

O amor dele à música e aos arranjos é algo que emociona.

É único na MPB.

Vida longa, Ben!!!

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