O pato da Fiesp

Os empresários não querem pagar o pato. Quem paga por eles?

Os empresários não querem pagar o pato. Quem paga por eles?

Por Bruno Pavan

Enquanto a área da auto-satisfação sexual evolui e oferece aos consumidores produtos cada vez mais realistas, o debate político no Brasil entrou na onda retrô e começou a produzir personagens infláveis.

Primeiro foi o Lula presidiário que apareceu, imponente e simpático, em um protesto contra a presidenta Dilma em Brasília.

Depois foi a vez de Dilma e, mas recentemente, em uma tentativa pouco singela, o prefeito paulistano Fernando Haddad apareceu com os pés transformados em latas de tinta.

A moda atingiu também a maior organização patronal do país, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Em frente a sua sede, na avenida paulista, um pato gigante e cheio de ar chama a atenção de quem passa perto.

A campanha é contra mais impostos no Brasil e foi motivada pela sinalização do governo de que quer a volta da CPMF.

Na TV, a propaganda é muito boa.

O publicitário Duda Mendonça, responsável pelas campanhas do presidente da FIESP Paulo Skaf ao governo de São Paulo, estampou em anúncios pelo estado, em 2010, quando “Paulinho da Fiesp” ainda era o “camarada Skaf”, do Partido Socialista Brasileiro: “presta atenção nesse cara”.

Skaf faz muito bem o seu papel na sociedade civil, coisa que figuras mais progressistas como Marina Silva não consegue fazer. De fato, não será nenhuma surpresa se o empresário chegar a um cargo executivo um dia.

Menos imposto para o brasileiro é uma campanha que faz sentido.

Mas a pergunta central é: “menos imposto pra quem?”

A campanha da FIESP pega alguns produtos que o brasileiro compra e destrincha os seus preços.

Na passagem de ônibus, por exemplo, você paga R$ 1,80 de tributos na tarifa de R$ 3,50. Num ingresso pra um show que custa R$ 350, R$ 143 vai pro Estado.

Tudo o que você comprar, basicamente, vai uma parte pro estado e outra pro empresário. Vejamos o exemplo da tarifa de ônibus, que de repente ficou tão simpática ao empresariado paulista: se cobra os R$ 1,80 do estado, mas por que não se debate o modelo de concessão dos ônibus em São Paulo?

Em 2013, quando prefeitura e governo do estado decidiram adiar o aumento das passagens de R$ 3,00 para R$ 3,20, o município teve de pagar R$ 1,6 bilhão para que as empresas não aumentassem a tarifa.

Ou seja, para prefeitura a passagem aumentou. E pensando que isso sai do orçamento municipal, a tarifa acabou aumentando pra população também.

Após os grandes protestos de 2013, Haddad encomendou uma consultoria sobre o sistema de transporte público na cidade. A Ernst & Young apontou que várias empresas que tem o direito de explorar o sistema de ônibus apresentaram falhas contábeis.

Um dos exemplos mais claros e didáticos são as empresas que apresentaram diferença na declaração de impostos (olha ele aí) pagos e na arrecadação do FGTS. As mais “espertinhas” declararam ter saldo devedor quando tinham dinheiro em caixa.

O segundo exemplo, o do ingresso, também é revelador. Quanto o consumidor final poderia pagar a menos se não existisse as tais “taxas de conveniência” que ele é obrigado a pagar mesmo se quiser imprimir o ingresso em casa?

O Brasil tem, sim, um grande problema tributário. Mas ele é de outra ordem.

Ele tributa de mais o consumo das pessoas, sendo que uma família pobre e rica acabam comprando no final do mês a mesma quantidade de arroz. Mas a renda do mais abastardo, por sua vez, está muito bem protegida.

Envio a pergunta para os empresários paulistas: o que eles acham do país voltar a tributar lucros e dividendos de acionistas de empresas no imposto de renda? A federação não se importa que “se pague o pato” nesses casos?

Enquanto isso o pato da Fiesp dorme tranquilo na noite paulistana, cercado por muros e com a presença do vigia que, acredito eu, tenha sido contratado sobre o regime da Consolidação das Leis do Trabalho pelos empresários tão preocupados com a justiça tributária no país.

Em tempo: manifestação certeira do co-editor desse espaço Murilo Henrique no Facebook: “Levando em consideração que o Sistema S Eh bancado por um imposto, uma contribuição compulsória, quem paga o pato Eh literalmente você …” (Revisor, não ouse!)

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