“Temos que tirar uma fotografia 3×4 de nós mesmos”, diz historiadora

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Por Bruno Pavan 

“A história não é conta de somar”, é esse o título da conclusão do livro Brasil: uma biografia, lançado em 2013 pela Companhia das Letras e escrito pelas professoras Lilia Schwarcz e Heloisa Sterling.

Na obra, uma viagem pelos momentos mais importantes do país, publicada em 2013, elas optaram por encerrar a análise após o segundo governo Lula. “Se a gente tivesse arriscado mais o livro já sairia datado. A ideia era só trabalhar com períodos que estivessem de fato encerrados”, explicou Schwarcz.

Quase três anos depois, os fatos provaram que a história tem seu próprio limite de velocidade. Em poucos menos de três anos uma presidenta que tinha mais de 60% de aprovação viu esse número despencar para menos de 10% e, agora, assiste a um processo de impeachment quase irreversível tomar corpo no Senado.

Em conversa com a reportagem, Schwarcz, que é professora titular da Universidade de São Paulo (USP), explica que a ascensão da direita nas ruas acontece por conta de um recuo da esquerda e alerta: está na hora do Brasil realizar “uma faxina geral não só no outro, mas na nossa cidadania”.

Confira a conversa:

No início do livro você fala do fenômeno do “Bovarismo“, ligado a personagem Madame Bouvary, que existe no brasileiro. O que seria isso?

Esse é um conceito na filosofia, calcado na personagem Madame Bovary, de Gustave Flaubert, e no Brasil é utilizado pelo Lima Barreto. É separado em duas partes: a primeira essa ideia do fascínio do brasileiro tem pelas ideias de fora, como se elas fossem receitas miraculosas. E a gente sabe que não, que eles tem a ver com os processos de fora, não necessariamente com a nossa realidade.

Outro ponto é o Bovarismo interno, e quem diz isso é o professor Antonio Cândido, por volta dos anos de 1930, que o Brasil precisava se apalpar, no sentido de se entender. Havia uma imagem projetiva que o brasileiro fazia de si próprio, mas que não correspondia o que é a realidade. Em vários momentos a gente acaba se chocando com isso, existe o Brasil imaginado, que seria pacífico, sem violência, e a gente conta pra nós mesmos essa história. Isso é impossível. Como um país que passou por tantos anos em um sistema escravocrata pode ser um país não violento?

Um exemplo dessa construção é o nosso nacionalismo romântico do século XIX, em que o Brasil era 75% negro, mas no imaginário imperial e nas obras de arte da época, a gente era um país de indígenas e brancos.

O momento que nós estamos passando hoje é de tirar uma fotografia 3×4 de nós mesmos. Entender qual a nossa dificuldade e realidade, ao invés de ficar projetando pro outro.

As mudanças políticas no Brasil nunca vieram acompanhadas de grandes mudanças na estrutura social. Como na independência, em que o país seguiu sendo uma monarquia, não aboliu a escravidão e nem distribuiu terras. Como isso ainda afeta o país hoje?

O Brasil tem elites, e a gente deve falar no plural, que são diversas, mas que fecham juntas nos momentos certos. Com isso, nós funcionamos um pouco nos princípios do Lampedusa: “é preciso que façamos alguma coisa pra que nada mude”.

Foi isso que ocorreu com o império, a ideia de sair pra uma opção monárquica, em meio a um continente republicano, foi para evitar revoluções maiores. O objetivo era evitar que se tocasse na questão da abolição e ter uma revolução nos moldes da haitiana, em que os negros tomaram o poder; e o desmembramento da grande propriedade.

Esse tipo de acordo mais reformista, de mudar conservando, faz parte da nossa política, e traz graves consequências. Nós temos uma lista dos “invencíveis”, você vai até certo ponto e depois não vai mais, porque se você esticar a corda, ela se rompe e ninguém quer ver ela se romper.

Em um artigo recente você coloca que o Brasil é feito de golpes e contragolpes. Porque isso acontece? O Brasil ainda é frágil institucionalmente?

É preciso separar a ideia da democracia e da república. Acredito que o país vai andando bem no jogo democrático desde a Constituição de 1988, com as eleições ganha nas urnas. A questão do impeachment é delicada, nesse artigo eu coloco que temos uma Constituição que não protege o presidente, mas o mecanismo está na constituição, por mais que ele pareça mais político do que qualquer outra coisa nesse momento.

No sentido do republicanismo, aí nós tomamos de lavada. Nós temos um problema sério com o respeito à coisa pública, o que é de todos. Um dos grandes inimigos da república é a corrupção, estamos vivendo mais um impacto causado pelo mau uso da verba que é pública.

Por outro lado, esse problema pode ser visto por uma dupla perspectiva. Não se trata de apenas culpar o estado, mas responsabilizar o cidadão também. Esse é o nosso bovarismo, sempre culpar o outro. Então, tudo bem, é a primeira vez na história que estamos pegando corruptos e corruptores, o que é muito importante, e que demos uma visibilidade a esse processo, mas precisamos fazer uma faxina geral não só no outro, mas na nossa cidadania. Sem isso nós vamos continuar apanhando no que se refere aos valores republicanos.

As manifestações de 2013 pegaram de surpresa os que ainda tinham uma visão do brasileiro mais pacífico e cordial. Porque isso aconteceu e veio à tona tão rapidamente? O povo vai ser mais ativo a partir de agora ou aquilo foi algo mais circunstancial?

Acho que nem um nem outro. A história não é uma avenida sem bifurcações, sem cruzamentos. Eu não acho que a gente pode fazer uma linha e falar que foi um projeto de ascensão, tanto não foi que nas manifestações de 2013 nós poderíamos sair nas ruas com os diferentes, e nós involuímos hoje, porque agora eu só vou pra avenida com os meus iguais.

O exercício da democracia é um exercício de plurais. O que aconteceu ali foi uma coisa muito nossa, o Brasil entra cedo na agenda dos direitos sociais, mas não tão cedo na dos direitos civis. O direito a lutar pela diferença, da igualdade, direito de ser mulher, de ser negro, de ser LGBT, de ser estudante… essa discussão da pluralidade apareceu muito na avenida, e era muito bonita, coisa que não estamos vendo hoje. Eu sou só quando eu só falo com meus iguais e é isso que as pessoas não estão notando, que elas estão profundamente sós.

Principalmente depois da reeleição da presidenta Dilma em 2014 nós estamos vendo um extrato importante da direita indo às ruas. Antigamente se falava até que o Brasil não tinha uma direita. O que aconteceu pra que essa parcela se mostrasse nas ruas?  

Esquerda e direita são termos polares, são relações. Só existe esquerda se você me der uma direita, não existe como essência, como forma absoluta. Essa direita não surgiu agora, o que acontece é que como a esquerda foi obrigada a recuar, por conta da descoberta dos casos de corrupção, e se ela recua a direita se apresenta.

Essa é uma novidade sim, porque ficou muito mais legítimo a direita se apresentar com direita. E isso é um problema? Não necessariamente. A democracia é a convivência entre diferentes. Não é ruim que ela se apresente, contando que sejam uma direita e uma esquerda cidadãs, no sentido de serem plurais e conseguirem ouvir o outro.

Passado agora o impeachment, que mobilizou grandes massas de pessoas, o que você acha que pode acontecer com a democracia brasileira?

Previsão a gente não faz. Existe uma frase que não é minha, é de Machado de Assis, que eu cito muito e é: as coisas só são previsíveis quando já aconteceram.

O que eu faço é uma hipótese como cidadã: nós passamos por um processo de impeachment com o Collor, que foi mais fácil porque não tinha um partido e uma história por trás, e que agora vamos passar por mais um. É um desafio, em um período tão curto, passar por dois processos de impeachment. É preciso ver o quanto as instituições estão fortes pra absorver mais esse processo. Temos que sair um pouco mais desobedientes desse processo, porque perguntar é desobedecer. Precisamos entender o que aconteceu. A história tem mecanismos pra fazer uma análise do que ocorreu, projetar para o futuro é complicado.

 

 

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