Professores debatem caminhos da esquerda frente ao golpe

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“Passamos por uma etapa defensiva da classe trabalhadora”, diz André Singer. Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil

Por Bruno Pavan

 

Após o afastamento da presidenta eleita Dilma Rousseff, a esquerda se pergunta qual o cenário que permitiu o golpe parlamentar que levou o vice-presidente Michel temer ao poder interinamente.

Na última segunda-feira (30), várias probabilidades de como chegamos aos momento político de hoje e qual a chance da esquerda sair ainda forte foram levantadas pelos professores André Singer, Vladimir Safatle, Marilena Chauí e Paulo Arantes na Universidade de São Paulo (USP)

União e luta institucional

Uma das necessidade urgentes, de acordo com Singer, é a esquerda se unir em torno de pautas democráticas e contra a retirada de direitos. Em sua fala ele lembrou que o governo interino tem um viés neoliberal e que vários pontos que estão em debate, como o congelamento do gasto social, idade mínima pra aposentadoria e a revogação da política valorização do salário mínimo.

“Nós passamos por uma etapa, a meu ver, nitidamente de defensiva da classe trabalhadora. O que está em jogo agora não é a ampliação de direitos, é impedir que direitos conquistados desde a década de 1940 sejam retirados. A primeira consequência prática disso é que nós precisamos juntar todas as forças possíveis pra evitar isso”, apontou.

Para ele, somente uma mistura de luta social nas ruas e a luta institucional, que se transforme e votos nas próximas eleições, darão um caminho para que a esquerda volte a ter força. “Não acho possível abrir mão de qualquer uma delas, e não acho que seja produtivo, ainda que reconheça o impulso, recusar as instituições nesse momento”, disse.

O fim da nova república

Já o professor Vladimir Safatle criticou o que ele chamou de “nova república”, período que começa em 1984, no final da ditadura, onde um acordo entre PMDB e Arena permitiu que a eleição para presidente, um ano depois, fosse feita de forma indireta.

Ele acredita que ali foram erguidas as estruturas para o sistema político de hoje, baseado na coalisão e na falta de qualquer tipo de punição aos torturadores ligados ao Estado.

“A nova república foi o momento de maior covardia política da história brasileira. O fim da ditadura aconteceu através não de uma acordo, mas de uma capitulação das forças democráticas em um modelo de conciliação política que serviu pra paralisar todo o ímpeto mais profundo de mudança. Determinada essa exigência de conciliação, criou-se uma espécie de centro de gravidade do poder que tragava todos os ocupantes do palácio do planalto pro mesmo lugar”, explicou.

Contradição do capitalismo dentro do Estado

Em sua fala, a filósofa e professora Marilena Chauí levantou as críticas feitas aos governos petistas, que teria paralisado os movimentos sociais e centrais sindicais além de não ter politizado a chamada “nova classe trabalhadora” que ascendeu na questão da renda.

Para Chauí, isso se explica em grande parte pelo estilo de política de conciliação lulista, que não se faz “pelo alto”, mas se trata de um modelo sindical. “Quando a negociação é interrompida você faz o confronto e depois você volta a mesa de negociação”. Um dos exemplos que ela usa são as contradições do capitalismo que estavam dentro do Estado brasileiro em seus anos de mandato, como economistas de linhas distintas no Banco Central e no Ministério da Fazenda, ou a dicotomia entre ruralistas e ambientalistas nos ministérios da agricultura e do meio ambiente.

“Não houve em momento nenhum o fechamento da contradição. Pela primeira vez um governo teve que conviver com a contradição e a marca da sociedade autoritária e do estado brasileiro, que é a recusa em aceitar as contradições do capitalismo e de lidar com elas. E elas operaram porque ninguém estava fazendo uma revolução, era um governo eleito no sistema capitalista, não era a tomada do Palácio de Inverno. Era algo que se passava no interior de uma sociedade capitalista oligopólica e vertical, que está estruturada de maneira a impedir qualquer política democrática de direitos”, esclareceu.

A professora também aponta que a união da esquerda deve ser pensada de modo a não acabar com as diferenças que fazem da esquerda o que ela é. E, um dos pontos que deveriam ser abordados seria a criação de uma nova institucionalidade brasileira, que não serviria para fazer demandas ao estado “mas para impedir que ele destrua todos os direitos que foram conquistados e aqueles a conquistar”.

Dispositivo que deflagrou o golpe de 1964 não foi desativado 

O professor Paulo Arantes também acredita que a sociedade brasileira ainda paga um preço muito alto por não ter se democratizado de fato após o período da ditadura civil-militar.

“Os objetivos estratégicos do golpe foram plenamente atingido. Nós somos ainda prisioneiros daquela pós-ditadura, que tem clausulas pétreas inegociáveis, que estão cifradas famosa constituição de 1988”, lembrou.

Arantes também acredita que a esquerda foi inábil pós manifestações de 2013 e que, de fato, o que surgiu nas ruas depois foi algo muito parecido com o fascismo na Europa.

“A esquerda só avança se ela incorporar massas necessariamente conservadora. Abriu-se uma cortina naquele momento e adentrou uma nova direita no Brasil. Daí quando dizem que é fascismo, é quase um acerto involuntário, porque o fascismo é um energia insurgente. Depois de uma guerra perdida e uma classe operária desmoralizada, mas tinha um poder insurrecional, os fascistas se mobilizaram”, encerrou.

Veja o vídeo da palestra na íntegra:

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