Marcia Tiburi: o fascista é um sujeito esvaziado de si

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“Você coloca no sujeito esvaziado aquilo que você quiser” Foto: Kamila Ferreira/ Agência PT

Por Bruno Pavan

A filosofa Marcia Tiburi esteve na última segunda-feira (4) no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, no centro da capital paulista, para a palestra “A Onda de ódio e preconceito em debate”, realizado pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Iatararé.

Autora do livro “Como conversar com um fascista”, Tiburi contou que a ideia de escrever esse livro partiu de um exemplo vindo de sua própria família, durante o almoço de natal e diz acreditar que isso acontece com muitas outras famílias brasileira

“Uma pessoa de minha família, que tem doutorado e pós doutorado, começou a destilar o discurso de preconceito muito pesado sobretudo em relação a sexualidade do outro. Aí lá pelas tantas eu percebi que as pessoas ao redor iam ficando muito quietas, se produzia um constrangimento, inclusive muitas deixavam a mesa, algumas delas chorando diante daquele preconceito exposto”, explicou.

Ela explica a ironia do título apontando que “obviamente” ninguém vai conseguir conversar com um fascista, mas as pessoas precisam voltar a se comunicar no dia-a-dia, como em uma fila de banco, dentro do taxi ou do ônibus.

Esvaziamento da alma  

Mas o que explica o aumento do discurso conservador em uma momento em que a luta em favor da diversidade está cada vez mais presente na sociedade? Para a autora, o fascínio é resultado de uma série de questões do mundo moderno. Uma delas vem do “esvaziamento de alma” provocado pelo capitalismo nos dias de hoje.   

“O capitalismo chupa e devora e sua alma, ele esvazia a pessoa por completo, e o que vem depois é uma implantação de próteses na sua subjetividade. Quando você um negro racista ou uma mulher machista, por exemplo, é como se você tivesse sido protetizado pelo capitalismo. Foi implantado uma espécie de chip. E o fascista é isso, ele é um sujeito esvaziado de si. Se colocou nele um complemento que pode ser uma hóstia, uma bíblia, uma televisão, a revista Veja, o que for. Você coloca no sujeito esvaziado aquilo que você quiser”

Redes sociais como meios “fascistizantes”

Muitos contrários ao uso de expressões datadas de um certo período criticam a utilização da palavra fascismo para descrever o que vivemos hoje no Brasil e no mundo. Para Tiburi, porém, o fascismo mudou de roupagem dos meados do século passado pra cá.  

Com o auxílio da chamada sociedade do espetáculo, meios de comunicação de massa e redes sociais, de acordo com a filosofa, colaboram para dar as pessoas um capital imagético, onde elas se sentem bem reproduzindo clichês.

“A gente tem que pensar nas condições do desenvolvimento do fascismo na nossa época. Um dos pontos é que vivemos em um mundo globalizado, em que uma das suas características é a sociedade do espetáculo. O Grande capital é a imagem, vide o poder dos meios de comunicação de massa. Nas redes sociais, as próprias palavras usadas na forma de clichês passaram a valer como imagens.  No Facebook, por exemplo, você vai ali e fica todo empoderado, porque você se transforma em um personagem, tem um lugar. O cara que capturou isso é um gênio e não só da computação, ele é um gênio estético, político e das operações de linguagem. Pega o capital imagético e verbal, coloca os dois dentro de um contexto e permite que todos usem isso”, observou.

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