Falta de narrativa e de punição são limitações para o debate sobre a ditadura, dizem autores

CapasLivrosDois livros com temática da ditadura militar foram lançados na última quinta-feira (14) em São Paulo por dois ex-militantes contrários ao regime. A mestre em literatura francesa Ivone Benedetti e o ex-professor da Escola de Comunicação e Artes da USP Bernardo Kucinski se voltaram à literatura ficcional para contar suas experiências no período dos governos militares.

Benedetti lançou “Cabo de Guerra” (Ed. Boitempo), que conta o período repressivo pelos olhos de um “cachorro”, não o animal, mas como era conhecido popularmente o militante que entregava seus companheiros para a repressão.

“Temos que saber que as constatações, as dúvidas, todas elas vivem dentro de nós e o que nos distingue de um cachorro é a opção pela luta. Muitos daqueles que morreram na ditadura tiveram suas dúvidas, mas no momento certo eles foram íntegros. O que distingue o mártir do calhorda não são as dúvidas, mas a escolha”, explicou.

Já Kucinski, escritor de diversas obras sobre jornalismo, política e economia, lança sua segunda obra ficcional “Os visitantes” (Cia das Letras) que tem como pano de fundo uma série de acertos de contas com alguns personagens de seu livro anterior “K – Relatos de uma busca” (Ed. Expressão Popular).

“K era um livro que tratou de episódios e protagonistas ainda na memória das pessoas, alguns ainda vivos, então ele suscitou muitas reações. A primeira delas foi um historiador de holocausto amigo meu que apontou um erro quando o protagonista disse que até os nazistas escreviam os nomes de todas as pessoas que eles matavam e isso estava errado. Depois foi havendo outras consequências e eu tive a ideia de uma narrativa mais homogênea através da figura do escritor que é assombrado pelos personagens do seu livro anterior”, apontou.

Disputa de narrativas

A metade do século XX, dentro do contexto da guerra fria, fez com que a América do Sul fosse inundada por ditaduras civis-militares patrocinadas pelos Estados Unidos e seu medo de surgirem “várias Cubas” pelo continente. Acontece que as semelhanças do Brasil com seus vizinhos acabam por aí.

A lei da anistia brasileira, assinada em 1979, fazia com que os presos políticos voltassem ao Brasil, mas também perdoava os torturadores. Diferente da Argentina, por exemplo, que condenou mais de 200 pessoas, entre militares e civis, por tortura na época da ditadura.

Uma tentativa de justiça foi o surgimento da Comissão Nacional da Verdade, que buscava esclarecer crimes de mortes, torturas e desaparecimentos na época dos governos autoritários, porém, sem a possibilidade de punição judicial. Bernardo aponta que uma das grandes falhas da Comissão foi não conseguir impor uma nova narrativa para o período.

“A história chega a nós apropriada através de narrativas e a grande oportunidade criada pela comissão era desenvolver uma luta por essa narrativa, para que a Nação olhe e reflita sobre o que aconteceu, discutir aquilo com seus filhos e netos pra que não aconteça de novo. Nesse sentido ela fracassou completamente, e pode até ter sido ruim na medida que no futuro vão dizer ‘vocês já tiveram a comissão da verdade, o que mais vocês querem?’”, lamentou.

Para Benedetti, essa carência de punições aos torturadores e agentes da repressão do estado leva a literatura a tentar buscar um ângulo diferente pra contar a ditadura, um pouco mais voltada às subjetividades dos personagens.

“Ela (a literatura) pode resgatar as nossas subjetividades, o que sobrou, de que maneira aquele período, aquele regime influenciou a nossa vida pessoal e social. A falta de uma catarse, como houve na Argentina, propicia esse tipo de comportamento. É a história da impunidade, não houve punição, por isso alguém é capaz de estar no congresso e fazer apologia ao Ustra e muitas pessoas possam admirar essa atitude. De que maneira a nossa mentalidade e subjetividade foi influenciada por todo esse clima da narrativa que faltou? Isso me parece merecer tratamento” , encerrou.

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