Apesar de termos feito tudo que fizemos…

Por Bruno Pavan

Elis Regina imortalizou, em 1976, a música “Como nossos pais”. Escrita por Belchior, ela conta a história de uma geração que começava a romper com os valores de seus pais.

“Não quero lhe falar, meu grande amor

Das coisas que aprendi nos discos

Quero lhe contar como eu vivi

E tudo o que aconteceu comigo”

Há tempos esse texto anda aparecendo pelas timelines das redes sociais por aí. Ele decreta que os jovens de hoje não querem mais saber de casa própria e carro e busca a resposta para essa questão.

A hipótese é muito romântica, quase um resgate de Woodstock ou o sonho de pegar uma Harley e atravessar a Rota 66: o jovem de hoje prefere gastar seu dinheiro em viagens e aventuras.

O próprio texto diz que os jovens de até 35 anos podem estar mais reticentes em fazer investimentos porque temem que crises futuras leve tudo por água abaixo. Sem saber que, estando eles preparados ou não, a próxima crise vai vir, porque, ora pois, vivemos no capitalismo.

Mas a questão entra aqui em um outro aspecto em que o capitalismo é mestre: conquistar os corações e mentes. Mesmo diante da aparente descrença desse público com o sistema e valores que temos hoje, quase ninguém cogita algo fora dele.

Os jovens de hoje são ensinados que os valores de seus pais não estão mais corretos. Ao invés de ficarem guardados em casa contando vil metal, se jogam no mundo em busca de experiências. Sem saber que a suposta liberdade é uma das amarras mais eficientes do capitalismo desde sempre.

A Geração Y (argghhh) troca, conscientemente, a certeza de uma casa própria ou um carro por experiências inovadoras como o Uber e o serviço de aluguel de casa Airbnb. Todos eles muito antenados com as necessidades de hoje. Os jovens de hoje são mais libertários, é o que dizem.

Isso pode, sim, ter um fundo de verdade. Mas a escolha dessa juventude não é tão natural assim. Décadas atrás, quando nossos pais trabalhavam na indústria, se colocou no ideário daqueles trabalhadores que eles tinham que ter um carro, uma casa, uma família e tudo isso antes do 30. Não havia nada de revolucionário nisso, existia um mundo com muito petróleo pra vender e, falando especificamente do Brasil, um país que não podia parar, já que uma paralisação econômica poderia fazer cair a máscara do regime ditatorial.

Mas que caretice, você diria. Pois é…

Mas o que ninguém te conta é que o capitalismo queria que seus pais agissem do jeito que agiram, e quer que você aja do jeito que você está agindo.

Vamos a uma conta simples: quanto você precisaria gastar para que, hoje, tivesse o que seus pais tinham conquistado até que você nascesse? Uma casa própria, com quintal, três filhos e um carro na garagem…

Mas você, ao contrário do seus pais, não precisa trabalhar em uma máquina, correndo o risco de perder um dedo. Não, você foi o primeiro da família que fez faculdade, tem línguas, é um profissional super conceituado, não precisa ir trabalhar de macacão, na sexta, olha, até de bermuda você pode ir. Tem um XBox na minha empresa e mesa de pebolim, cara. As vezes eu trabalho 12 horas por dia, ah, mas assim dá até gosto! Preciso resolver umas paradas no whatts app em casa, ah, mas é rapidinho! Trabalho como PJ, mas é até melhor, né, pago menos imposto pros ladrões do governo.

A geração de hoje pode até ser a do aluguel, do Uber, do Airbnb, mas deve saber que isso não é nenhum tipo de revolução hipster. Isso é uma adequação aos moldes de um capitalismo mais escasso. As tecnologias deixam a vida urbana mais agradável, mas também te desconectam das dificuldades e das limitações que o capitalismo te impõe. Da janela do Uber os problemas do transporte público ficam mais distantes, por exemplo.

Nada de errado ter outras prioridades que seus pais na vida, só não se esqueça que você não faz nenhuma revolução com essa sua vida supostamente desapegada.

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