Jessé Souza: criou-se uma base social conservadora que não existia no Mensalão

 

14053745_1322313027780549_5770941829876101462_oPor Bruno Pavan

Na última sexta-feira (26) o sociólogo e ex-presidenta do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) Jessé Souza esteve na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) para lançar seu novo livro A radiografia do Golpe (Ed. Leya).

Souza aponta que a obra, além de ser uma tentativa de superação da frustração de lidar com todo esse processo, é uma reflexão dos fatores que desencadearam essa crise. Uma das grandes questões levantadas é o que teve de novo em 2016, que foi capaz de derrubar o governo, que não havia no auge da crise do Mensalão? O professor aponta que em 2016 houve uma formação de uma base social conservadora que foi às ruas.

“Essa classe média estava incomodada com os pobres que ascenderam aos shoppings e aos aeroportos, mas ela não tinha uma narrativa. Isso é algo que você reclama à boca pequena no bar, mas não é ilegítimo dentro do contexto do cristianismo, a religião passa pra cultura e não é razoável ser contra essa ascensão. As manifestações de 2013 e o Jornal Nacional vão produzir a narrativa e um líder (Sergio Moro) pra essa classe média protofascista. O fascismo tem uma gramática universal que é a manipulação de emoções e medo que são transformados em bandeiras pseudo-racionais e a criação de um bode expiatório comum. Entre nós isso é interno, é o combate a corrupção. Você não é um crápula quando veste a camisa verde e amarela e vai pra avenida paulista protestar contra a corrupção”, esclareceu.

A mídia é sócia da elite econômica

Um personagem muito presente dentro do processo do impeachment foi o ex-presidente da câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ). As portas de seu processo de cassação no Conselho de Ética da casa, por ter mentido na CPI da Petrobras e ter dito que não possuía contas no exterior, Cunha resolveu dar prosseguimento ao processo de impeachment da presidenta após não conseguir apoio dos deputados do PT para barrar o processo.

Souza, no entanto, critica os setores da esquerda que insistem em “fulanizar” o processo e entende que a crise política foi implantada por elementos impessoais, ligados a uma elite do dinheiro que financia o Congresso Nacional e a grande imprensa.

“A elite do dinheiro, como mandante do golpe, nunca foi percebida enquanto tal. Essa elite brasileira é escravocrata e não tem um projeto de longo prazo para o país. Quando você não tem isso, você não tem a percepção que o seu lucro tem a ver com desenvolvimento, a formação de uma sociedade industrial, no fundo é uma elite da rapina fácil. Vamos dominar o orçamento e enfiar no bolso e continuar parasitando a sociedade a partir do juro. O mercado é invisibilizado em sua ação e seus braços mais visíveis são o Congresso comprado e a mídia, que além de comprada é sócia desse saque”, apontou.

O mercado se dá ao luxo de não ser hipócrita

O outro braço visível da elite econômica do país, de acordo com o professor, é a compra do Congresso Nacional como representantes de seus interesses. Para ele, projetos como o da PEC 247/16 que, em nome do ajuste fiscal, congela gastos públicos em saúde, educação e previdência por 20 anos. Na prática, colocando a inflação dos períodos na conta, vamos ter diminuição do investimento público nessas áreas.

“O que está implícito ali na PEC 247 é a compra do Congresso pela elite econômica. Como você não tem essas condições políticas pra taxar esses ricos, você tem que pedir esse dinheiro emprestado a esses ricos que você não pode taxar. Essa é a crise fiscal, que vai dar na dívida pública e esse mecanismo vai aumentar cada vez mais a drenagem de recursos de todas as classes a essa meia dúzia de rentistas. O mercado invisível se dá ao luxo de não ser hipócrita”, encerrou.   

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s