André Singer: “no futuro será preciso fazer e mobilizar ao mesmo tempo”

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Foto: Divulgação

Ocorreu na última quinta-feira (10) na faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Sociais da Universidade de São Paulo (USP) o lançamento do livro “As contradições do lulismo: em que ponto chegamos?” (Ed. Boitempo).

O evento teve a participação dos organizadores do livro, André Singer e Isabel Loureiro, além de autores dos artigos presentes na obra: Leonardo Mello, Ruy Braga, Wolfgang Leo Maar e Maria Elisa Cevasco.

A obra, que não contempla o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, é um conjunto de artigos que tentam explicar as decisões políticas dos anos Lula e Dilma no poder, marcados pela contradição entre a distribuição de renda por meio de um “reformismo fraco”.

Para Singer, o início da derrocada do governo Dilma foi o momento em que ela tomou partido a favor da burguesia industrial e contra o rentismo e iniciou um “ensaio neodesenvolvimentista” mais arrojado. Esse período teve início em julho de 2011 e durou até abril de 2013, quando a taxa básica de juros caiu de 12,50% para 7,25% ao ano.

“Depois da crise de 2008, não dava mais pra relançar a economia com base no consumo, teria que ser na base do investimento. E a dúvida era: investimento privado ou público? E a Dilma tentou favorecer ao máximo o investimento industrial privado, fazendo uma política econômica mais avançada de tal maneira que se tivesse dado certo a gente estaria caminhando de um reformismo fraco pra um reformismo forte. Mas pra isso ela precisava ter base política e como ela não teve, fracassou”, explicou.

Uma das principais dicotomias dos governos petistas aconteceram no campo. Em seu artigo para o livro, Loureiro aponta uma “combinação esdrúxula entre agronegócio e agroecologia” que ao mesmo tem em que priorizava o primeiro como alavancador da balança comercial, investiu uma soma muito maior de dinheiro em projetos ligados aos pequenos agricultores como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).

O Projeto da esquerda

O fato do livro não abordar o período derradeiro do governo Dilma não foi motivo para que o assunto não fosse perguntado pela plateia. Uma das principais inquietações foi sobre a união entre os vários setores da esquerda brasileira nesse momento de crise e se a PEC 55, que tramita no Senado e prevê o congelamento de investimentos sociais em áreas como saúde e educação por 20 anos, pode ser fator de união entre os progressistas brasileiros.

“O importante agora não é tanto essa unificação, mas que a esquerda tenha um projeto”, apontou Loureiro. Para ela a esquerda precisa resgatar a ideia de Celso Furtado e repensar qual a ideia de desenvolvimento que vá se defender a partir de agora.

O professor da USP Ruy Braga alerta que o caminho pra esquerda é resgatar a ideia de democracia participativa.

“Você ficar negociando com o parlamento e propondo políticas públicas e achar que isso é o suficiente é o caminho pra derrota no Brasil. Essa crença na democracia representativa faz com que você abra mão da perspectiva de efetivamente enfrentar os interesses que não são os populares. Qualquer solução pra esquerda no país passa por uma revalorização da democracia participativa”, criticou.

Autocrítica pra quem?

Não é de hoje que setores da esquerda brasileira cobram o PT de fazer uma autocrítica de seus erros enquanto governo. Agora, talvez esse retorno as origens seja necessário não só pra esquerda brasileira, mas para a mundial, já que o conservadorismo tem dado as caras tanto no Reino Unido e EUA quando na Colômbia.

Braga traça um paralelo da situação do PT com a escolha do Partido Democrata por Hillary Clinton nos EUA, em que o pragmatismo é sempre única saída encontrada.

“O Partido Democrata foi pra briga com uma candidata com enorme rejeição e que era a decantação cabal de tudo aquilo que a população americana não queria mais. Sendo que tinha a solução a mão, que era o Bernie Sanders, mas a opção foi pelo “possível. Se eles estivessem ido com o Sanders muito provavelmente hoje nós estaríamos comemorando a vitória do primeiro candidato socialista da história americana. Com o PT acontece mais ou menos a mesma coisa, é uma esquerda que foi cedendo e quando viu foi puxado o tapete e não houve resistência. Não existe espaço vazio na política, você cede e tem uma hora que ninguém mais acredita que possa ser capaz de dar uma guinada. Eu tenho insistido de que precisamos resgatar essa ideia de que se é possível algo a gente tem que se colocar a esquerda desse possível, ceder sempre a esse pragmatismo vai ser entregar o ouro pro bandido”, sugeriu.

Singer identificou o que ele chamou de duas faces da esquerda nos anos do lulismo no Brasil: os que achavam que pouco tinha sido feito e que era preciso avançar, e os que acreditavam que muito tinha sido feito e era preciso defender as conquistas. Para ele, ambos precisam fazer a devida autocrítica.

“Os que diziam que era pouco tem que reconhecer que foi feito muito e isso é uma questão analítica importante porque ninguém dessa posição achava que sem confronto isso poderia ser feito. Não é uma questão de gostar ou não gostar, é questão de a gente entender a realidade. Da mesma maneira que a experiência da presidenta Dilma não deu certo outras coisas deram muito certo. Já a posição contrária tem que pensar que ao abandonar a mobilização, tudo o que foi feito fica muito frágil. Para o futuro será preciso fazer e mobilizar ao mesmo tempo, mesmo que o preço seja algum grau de confronto. Se você não mobilizar isso não fica, então o saldo final tem que ser as políticas, mas também a mobilização que a sustenta no período seguinte, porque sempre haverá um período seguinte”, encerrou.

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